CHANGING MINDS, LAWS & LIVES CAMPAIGN

Edição #609, Nov 20, 2009

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    Matéria: EUA abrem mão de erradicar papoulas afegãs para visarem traficantes

    Nesta semana, milhares de fuzileiros navais dos EUA acorreram em tropel à Província de Helmand no sul do Afeganistão para levarem o combate ao Talibã ao baluarte inimigo. Porém, em um desvio desconcertante de décadas de políticas antidrogas estadunidenses, a erradicação do enorme cultivo de papoulas de Helmand não fará parte de sua missão geral.

    Richard Holbrooke, o enviado dos EUA ao Paquistão e ao Afeganistão, disse aos integrantes do G-8, o grupo mundial de países industrializados, que tentar esmagar o tráfico de ópio e heroína através da erradicação era contraproducente e uma política ruim. Em troca, os EUA se concentrariam em fomentar o desenvolvimento alternativo, aumentar a segurança e visar traficantes e laboratórios de drogas.

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    ilustração antidroga afegã no Centro Nejar em Cabul
    “A erradicação é um desperdício de dinheiro”, disse Holbrooke à Associated Press durante um intervalo na reunião de ministros estrangeiros do G-8 no Afeganistão. “As políticas ocidentais contra o ópio, a papoula, têm sido um fracasso. Pode destruir alguns hectares, mas não reduziu o valor em dinheiro que o Talibã recebeu por dólar. Apenas ajudou o Talibã, então vamos descontinuar a erradicação”, disse.

    “Os agricultores não são nossos inimigos; apenas semeiam um cultivo para se sustentarem. É o sistema das drogas”, prosseguiu Holbrooke. “Então, a política dos EUA levava as pessoas às mãos do Talibã”.

    Estima-se que os insurgentes talibãs ganhem dezenas ou até centenas de milhões de dólares ao ano com o tráfico de ópio e heroína, que gera múltiplas fontes de renda para eles. Os comandantes talibãs tributam os cultivadores de papoulas em regiões que estão sob seu controle, proporcionam segurança aos comboios com drogas e vendem ópio e heroína mediante redes de contrabando que atravessam o mundo.

    Até o ano passado, os formuladores de políticas estadunidenses foram a favor de intensificar os trabalhos de erradicação, sendo que alguns até mesmo expuseram argumentos a favor da aspersão aérea com herbicidas, como tem sido feito com sucesso limitado, mas com conseqüências políticas e ambientais graves na Colômbia. Essa idéia sofreu a oposição do governo afegão do presidente Hamid Karzai e também dos colaboradores dos EUA na OTAN, particularmente a Grã-Bretanha, que respalda a expansão da erradicação manual nas plantações de papoulas.

    No domingo, o general Khodaidad, ministro antidroga afegão, rebateu as afirmações de Holbrooke de que a erradicação era um fracasso ao dizer a Canadian Press que o Afeganistão alcançara “muitíssimo sucesso” com sua estratégia antidroga, a qual depende bastante da erradicação manual das plantações de papoulas. Contudo, ele disse que admitiria de bom grado a nova estratégia estadunidense. “Seja qual for o programa ou a estratégia que beneficiar o Afeganistão, ficamos felizes em acolhê-lo”, disse Khodaidad. “Estamos satisfeitos com nossa política… assim, não vejo nenhuma pausa ou, como se diz, deficiência, em nossa estratégia. Nossa estratégia é perfeita. Nossa estratégia é boa”.

    A Grã-Bretanha e os EUA discordam em relação aos planos de erradicação de plantações. De acordo com o jornal londrino The Independent, no domingo, funcionários britânicos disseram que iam continuar financiando a erradicação manual em áreas que estão sob seu controle. No entanto, tais funcionários minimizaram qualquer controvérsia e disseram que faltava resolver os detalhes.

    Mas, a erradicação tem tido um sucesso extremamente limitado. De acordo com o Escritório da ONU sobre as Drogas e o Crime (UNODC, na sigla em inglês), a erradicação atingiu seu ponto mais alto em 2003, enquanto o Talibã batia em retirada, com mais de 20.600 hectares destruídos. Por volta de 2007, esse número caíra para 19.000 hectares e, no ano passado, ínfimos 5.465 hectares foram erradicados. Igualmente, uma sondagem das vilas que haviam participado da erradicação no ano passado descobriu que quase a metade deles voltou a cultivar papoulas neste ano.

    A mudança na política estadunidense foi elogiada por observadores de todas as ideologias. Ela também provocou especulações de que era possível emulá-la em outras partes, particularmente na América Latina.

    “A nova estratégia antidroga no Afeganistão que minora a erradicação e enfatiza o desenvolvimento agrícola e a interceptação está coberta de razão”, disse Vanda Felbab-Brown, uma especialista em drogas, desenvolvimento e segurança da Instituição Brookings. “Segundo as condições vigentes no Afeganistão, a erradicação não só tem sido ineficaz, mas contraproducente porque fortalecer o vínculo entre a população do campo que depende da economia ilícita e o Talibã. Furtar-se à erradicação contraproducente não só é uma análise correta, mas uma ruptura corajosa da parte do governo Obama com décadas de uma estratégia antidroga fracassada no mundo inteiro que se centra na erradicação prematura e insustentável”, acrescentou.

    “É claro que é um passo positivo e pragmático”, disse Ethan Nadelmann, diretor-executivo da organização Drug Policy Alliance. “Parece que o governo Obama está tão profundamente comprometido com ter sucesso no Afeganistão que está disposto mesmo a levar a cabo uma política de drogas pragmática. É uma medida inteligente”, acrescentou. “É um reconhecimento implícito de que a produção de ópio não vai ser erradicada no mundo contanto que exista um mercado para ele. Considerando que o Afeganistão é o produtor predominante de ópio no momento, a estratégia pragmática é a de descobrir como gerir essa produção sem levar a cabo uma estratégia de erradicação de cultivos politicamente destrutiva e ineficaz”.

    “Enfim, este governo demonstra algum pragmatismo”, disse Malou Innocent, analista de política externa do Instituto Catão de tendências libertarianas. “Começamos a entender que nossas políticas estão afetando os resultados que queremos nas políticas. Não presenciamos isso durante o governo anterior, então isto é promissor sem dúvida”, acrescentou.

    Ela não demorou a acrescentar que isso não significa necessariamente que haja uma luz no fim do túnel. “Lamentavelmente, isto não me deixa mais otimista a respeito de nossas perspectivas”, manifestou. “Isto nos fará conquistar mais adeptos no local, mas também tem de estar ligado a menos assassinatos direcionados, menos ataques aéreos que gerem baixas civis ou provavelmente qualquer boa vontade será anulada”, disse.

    Igualmente, Felbab-Brown advertiu que o governo Obama deve se preparar para defender a mudança nos EUA. “É imperativo que o governo alhane o terreno político e informe ao Congresso [dos EUA], à opinião pública e à comunidade internacional que é improvável que a nova política resulte em uma redução considerável do cultivo ou da dependência da economia ilegal em breve já que o desenvolvimento agrícola é um processo duradouro que depende da segurança”, disse. “É preciso determinar as expectativas certas agora para que as realizações da nova estratégia não sejam interpretadas em dois ou três anos como fracassos porque os números de hectares cultivados com papoulas não diminuíram bastante”.

    Nadelmann indicou que a nova estratégia provavelmente não impactará consideravelmente o tráfico. “Com as medidas alternativas que eles propõem, como o foco nos traficantes, não há muitos motivos para pensar que isso causará algum impacto considerável sobre as exportações afegãs de ópio e heroína, mas permitirá que os EUA, a OTAN e o governo afegão levem a cabo uma estratégia mais sagaz e produtiva, pelo menos no âmbito político”, declarou.

    “Pode ser que a verdadeira implicação interessante disto seja para a América Latina”, disse Nadelmann. “Isso faz você se perguntar se o governo Obama consegue perceber que a mesma estratégia que leva a cabo para o ópio no Afeganistão faz sentido na América Latina a respeito do cultivo de coca nos Andes”.

    Talvez isso seja prematuro. Como os analistas não prevêem nenhuma diminuição no cultivo de papoulas e pouco impacto sobre o narcotráfico, a médio prazo, o único argumento político convincente para o afastamento da erradicação será o do sucesso em derrotar ou enfraquecer significativamente os insurgentes talibãs. Será uma tarefa difícil cujo sucesso absolutamente não está garantido.

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