Matéria: Guerra dos EUA no Afeganistão vira combate às drogas dos EUA no Afeganistão
Ao passo que o verão chega ao Afeganistão, não é só a temperatura que está aumentando. Quase mais 20.000 efetivos estadunidenses se somam às forças dos EUA e da OTAN no local, o que eleva os totais de efetivos estrangeiros a quase 90.000, e insurgentes enriquecidos com o tráfico de ópio e heroína os combatem com dezenas de ataques ao dia pelo país afora. Porém, neste ano acontece algo diferente: Pela primeira vez, o Ocidente visa diretamente as redes do tráfico que rendem centenas de milhões de dólares ao ano aos insurgentes.

os artigos do traficante de ópio (foto de Phil Smith, editor da Crônica, durante sua visita ao Afeganistão em 2005)
“Foi uma importante operação contra o setor dos entorpecentes ilegais e representa um revés considerável para os insurgentes na Província de Helmand”, disse o tenente-coronel Stephen Cartwright, comandante de alguns efetivos britânicos. “Ficou comprovada a relação entre os insurgentes e o setor dos entorpecentes quando os militantes utilizam o dinheiro proveniente do tráfico como fonte principal de financiamento para se munirem e levarem a cabo sua campanha de intimidação e violência. Ao destruirmos este ópio e as instalações de preparação de drogas, visamos diretamente sua capacidade de combate. A operação foi bem recebida pelo povo afegão”.
Não foi o primeiro ataque ocidental contra o narcotráfico afegão neste ano e com certeza não será o último. Atuando desde o semestre passado segundo novas ordens de mobilização, pela primeira vez os efetivos ocidentais e seus aliados afegãos estão travando seriamente um combate às drogas como parte de suas operações de contra-insurgência aparentemente intermináveis. Com isso estão atraindo uma reação brusca do Talibã, que deve ser entendido menos como um movimento monolítico de fundamentalismo islâmico do que como um amálgama em contínua mudança de mujaidim - nativos e estrangeiros -, chefes de guerra rivais - inclusive o chefe titular do movimento, o mulá Omar -, membros de tribos desiludidos e cartéis puramente criminosos denominado coletivamente “o Talibã”.
Até este momento do ano, 142 efetivos da OTAN e dos EUA foram mortos em combate, o que põe 2009 em vias de ser o ano mais sanguinário de todos para o Ocidente na invasão, ocupação e contra-insurgência – que agora contam quase oito anos – com vistas a desarraigar o Talibã e seus aliados na Alcaida. Centenas de combatentes talibãs, se não mais, e um número desconhecido de civis afegãos também morreram, vítimas de ataques aéreos ocidentais, dedos nervosos nos gatilhos e incessantes ataques talibãs contra as forças de segurança e em lugares públicos.
Haverá um “duro combate” neste verão e além no Afeganistão, disse o general David Petraeus, alto comandante dos EUA, em comentários a repórteres em Tampa na quarta-feira. Ao passo que os efetivos dos EUA e da OTAN passam à ofensiva “para recuperarem do Talibã áreas que conseguiu controlar, haverá um duro combate”, disse. “Com certeza, esse duro combate não será concluído apenas neste ano. Com certeza, haverá duros períodos além deste ano”, acrescentou enquanto observava que a insurgência do Talibã está em seus níveis mais sanguinários desde 2001.
A insurgência emergente, financiada em sua maior parte pelos lucros do tráfico, provocou uma reconsideração da estratégia antidroga ocidental e também a mobilização de mais quase 20.000 efetivos, sendo que uns 7.000 deles foram encaminhados a Helmand, que, se fosse um país, seria o maior produtor de ópio do mundo.
O almirante Michael Mullen, presidente do Estado-Maior Conjunto dos EUA, expôs o novo pensamento em declarações perante o Senado estadunidense no mês passado. O Ocidente está perdendo a luta contra a produção de ópio, disse, então, em vez de apenas ir atrás dos militantes talibãs, chegou a hora de “ir atrás” dos poderosos chefões que controlam as redes do tráfico e do contrabando no Afeganistão.
“Em relação aos entorpecentes – a ameaça que está ali -, eles estão claramente financiando a insurgência. Sabemos que, estrategicamente, minha opinião é a de que é preciso eliminá-los”, disse Mullen. “Quase não tivemos sucesso nisso nos últimos sete ou oito anos, inclusive nas tentativas deste ano, porque não conseguimos apoiar nenhum tipo de erradicação com um sustento viável”.
Embora a nova abordagem – tirar a importância da erradicação das plantações dos agricultores e visar o narcotráfico, especialmente quando mantém relação com a insurgência – seja melhor do que a dos anos Bush, ainda está repleta de problemas, empecilhos e incertezas, disseram três especialistas consultados pela Crônica.
“Presenciamos um claro afastamento da erradicação enquanto enfoque predominante e uma clara ênfase no desenvolvimento rural como modo de proceder e esse é um importante desdobramento positivo”, disse Vanda Felbab-Brown, uma acadêmica que lida com drogas e insurgência na Instituição Brookings. “Nominalmente, a interceptação sempre fez parte do pacote, mas agora há novas ordens. Desde outubro, os países da OTAN podem participar da interceptação de traficantes ligados ao Talibã. Com certeza, os EUA e o Reino Unido planejam se envolver um bocado nesta missão”.
“A política inteira mudou”, concordou Raheem Yaseer, vice-diretor do Centro de Estudos sobre o Afeganistão da Universidade do Nebrasca em Omaha. “Houve um monte de críticas porque os efetivos não iam atrás dos chefões ou do tráfico. Ficavam concentrados nos terroristas, mas, agora, percebem que, na verdade, o tráfico de ópio tem sido empregado para financiar as atividades deles. Então, agora estão tentando eliminar os traficantes e os promovedores do tráfico”, explicou.
“Há mais ênfase na reconstrução”, disse Yaseer. “Haverá alguma compensação para as pessoas que abrirem mão da papoula e passarem da papoula ao açafrão, coisas desse tipo. Contudo, a segurança é algo fundamental e há problemas na segurança”, acrescentou, em uma utilização magistral da minimização.
“Parece que o governo [dos EUA] pelo menos entende que a erradicação deveria visar os cartéis e não os pobres agricultores da região”, disse Malou Innocent, especialista em política externa do Instituto Cato, uma organização de tendências libertarianas. “Espero que sigam esse caminho; é a melhor de muitas opções horríveis. A melhor política seria a legalização”, disse e acrescentou com melancolia que preferiria políticas de drogas mais sensatas.
“Pressinto que será um verão muito sanguinário”, disse Malou. “Haverá mais violência por causa das eleições no Afeganistão neste mês de agosto e também pela ofensiva anual de primavera e verão do Talibã, que neste ano será mais ou menos uma contra-ofensiva ao aumento de efetivos do Ocidente”.
Falta ver o que a nova ênfase na perseguição aos traficantes de drogas conseguirá, disse Felbab-Brown. “A interceptação pode proporcionar um bom motivo para que o Talibã se afunde mais no tráfico ou pode incentivar os traficantes a se somarem ao governo Karzai”, disse ela.
Também falta ver o efeito da nova campanha sobre a segurança no campo, manifestou Felbab-Brown. “Nossa capacidade de reconstrução é muito fraca depois de décadas de abandono e uma tentativa sistemática de destruir esses projetos”, apontou. “No fundo, apesar de tudo, a eficácia dos programas de desenvolvimento rural depende da segurança. Sem segurança, não há programa eficaz”.
As forças militares ocidentais também têm de começar a construir sua imagem. “Por causa de políticas equivocadas do passado e do alto número de baixas civis, a percepção inicial dos efetivos estrangeiros passou do favorável ao antagônico. Demorará um pouco reaver a boa imagem”.
Yaseer também duvidava da utilidade do enorme aumento de efetivos estrangeiros, sobretudo estadunidenses, que agora está em andamento. “A menos se ataquem as fontes do problema, que estão radicadas no Paquistão, acrescentar mais efetivos não será muito útil”, opinou. “Simplesmente deixarão a região mais instável, criarão mais ressentimento e proporcionarão aos insurgentes um alvo maior do que antes”, disse.
“O desejo do novo governo [dos EUA] de mudar as políticas te deixa um pouquinho mais otimista. Por outro lado, o tempo dirá se o Ocidente fala seriamente disso”, prosseguiu Yaseer. O progresso dependerá da natureza das operações e da real implementação ou não das novas políticas, de saber se isto é de verdade”.
Para Malou, o tempo está se esgotando e os soldados ocidentais não têm nenhum bom motivo para permanecerem no Afeganistão durante muito mais tempo. “Não encontramos bin Laden em oito anos e os altos integrantes da Alcaida que capturamos foram fruto de investigações policiais, não da força militar. Muitas pessoas na região nos dois lados da fronteira percebem a presença de militares estrangeiros no Afeganistão como uma ocupação estrangeiro e isso cria mais dificuldades ainda”, disse.
Os EUA precisam planejar uma estratégia de saída, disse Malou. “Quando isso é examinado em termos estratégicos e econômicos, os EUA simplesmente não possuem um interesse vital que nos incite a permanecer na região por tempo indeterminado”, disse. “Precisamos colocar uma data na retirada nos próximos anos. É preciso restringir nossos objetivos a treinar forças de segurança. Não vejo por que precisamos permanecer mais tempo nesta região”.












digg
reddit



