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Edição #607, Nov 06, 2009

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    Resenha da Crônica: "God's Middle Finger: Into the Lawless Heart of the Sierra Madre" de Richard Grant (2008, Free Press, 288 págs., US$ 15,00, brochura)

    "God's Middle Finger" [O dedo do meio de Deus] não é um livro sobre políticas de drogas. Na verdade, nem sequer um livro sobre drogas é: pertence ao gênero da literatura de viagem. Porém, se tiver interesse em drogas, produção de drogas e políticas de drogas, especialmente quando se trata do narcotráfico mexicano, é um livro que valeria a pena ler.

    http://stopthedrugwar.org/files/godsmiddlefinger.jpg
    E quando você terminar vai me agradecer, porque este livro dá gosto. Escrito por Richard Grant, o jornalista britânico andarilho que veio a este hemisfério em busca de esquisitices (seu livro anterior, "American Nomads" [Nômades estadunidenses], se concentrou em marginalizados, vagabundos e outras estranhezas ao norte da fronteira), "God's Middle Finger" é o conto desordenado, horroroso e às vezes assustador de sua tentativa frustrada de viajar através da cadeia de montanhas da Sierra Madre no México, um lugar historicamente sem lei e violento em que a presença do Estado Mexicano é sentida apenas raramente e a duras penas.

    Se estiver na fronteira dos EUA com o México em algum lugar como Douglas no Arizona ou Columbus no Novo México, é possível ver a extremidade setentrional da Sierra Madre a poucos quilômetros ao sul. A partir desse ponto, a tremenda cordilheira acidentada – que chega a 3.000 metros acima do nível do mar – se estende por mais de 400 quilômetros ao sul e corta os estados mexicanos de Chihuahua, Sonora, Nayarit, Sinaloa e Durango em uma série de maciços esculpidos por cânions espetaculares que não permitem uma travessia fácil. Enquanto sede histórica de fora-da-lei, eremitas, caubóis e índios renegados (bandos sobreviventes de apaches se escondiam ali desde o fim dos anos 1930, informa Grant), a Sierra Madre contemporânea agora é um lugar freqüentado por parias, tarahumaras cavernícolas, mórmons, cultivadores de papoulas, plantadores de maconha, traficantes cruéis e – de quando em vez – soldados e policiais mexicanos erradios.

    Atualmente, o tesouro da Sierra Madre não é o ouro, mas os cultivos de que derivam as drogas que se plantam ali e ninguém precisa de nenhum maldito distintivo. Ou mesmo se usarem distintivos, parece que isso não faz muita diferença. Em um relato, Grant narra uma noite em um bar em uma cidade montanhosa em que dois policiais da região que bebiam cerveja insistiram na moita que lhes comprasse caguamas [garrafas de cerveja grandes] e compartilhasse a cocaína deles, ou perico (papagaio, porque te faz tagarelar como um). “Podem me chamar de paranóico”, escreveu Grant, “mas a idéia de usar cocaína com policiais mexicanos me deixa nervoso”. Mas considerando a alternativa – irritar dois policiais chapados com heroína e meio bêbados que ficariam muitíssimo ofendidos ao verem que ele recusou sua oferta -, Grant cheirou carreiras na mesma junto com eles até que, por sorte, seu dinheiro acabou e conseguiu se escapulir.

    (Tive uma experiência parecida com um policial que injetava cocaína em uma vila de em Veracruz em meados dos anos 1990. A essas alturas comecei a entender que parte da cocaína desviada da rota caribenha do contrabando depois de uma operação reaganista em meados dos anos 1980 e que agora se dirigia ao norte através do México estava “caindo do caminhão”. Não se costumava ver muita cocaína no México e com certeza você não se deparava com policiais chapados com cocaína. Ai, como as coisas mudaram!)

    Grant escreve que lhe avisaram várias vezes que não fosse viajar pela Sierra Madre, que provavelmente o matariam se viajasse sozinho. Mas, obcecado com essas montanhas, ele foi mesmo assim, normalmente dependendo de contatos da região para mantê-lo em segurança. Nem sempre isso dava certo. O prólogo de "God's Middle Finger" o mostra fugindo para salvar sua vida a pé através das montanha à noite enquanto traficantes bêbados e chapados com cocaína o perseguiam e, pelo visto, estavam prontos para matá-lo por esporte. Em outra ocasião, Grant conta como destruiu o motor de seu veículo após ser forçado sob a mira de uma arma a rebocar o carro quebrado de uns desconhecidos por um desfiladeiro.

    Grant possui um grande pendor pela narrativa e apresenta ao leitor todo um conjunto de personagens vívidas e histórias locais, mas seu amor à Sierra Madre estraga um pouquinho quando se depara com as realidades violentas e rapazes da vida sem lei. É proibido o porte privado de armas no México, mas como lhes diz um de seus informantes, cada lar tem pelo menos uma escopeta e uma pistola e AK-47s são um diferencial da honra machona. O assassinato é comum na região, assim como o estupro e a matança por vingança. A mistura de uma população hiperviolenta de traficantes chapados com coca e birita e a beleza lúgubre da Sierra Madre fica feiosa e horripilante.

    Como diz Grant: “O que havia, em outras palavras, era um revanche caipira que estava até dizer chega no negócio mais perigoso do mundo: os entorpecentes ilícitos. Suas tendências existentes para a violência, a vingança e a inclemência haviam se sobrecarregado”.

    Estavam tão sobrecarregadas que Grant, cansado do medo e da tensão das posturas machistas, abreviou sua viagem no meio da cordilheira. A prudência e o nojo podem ter vencido a obsessão, mas com "God's Middle Finger", Grant proporciona um conjunto altamente memorável de olhares para a região vital das montanhas de alguns dos traficantes mais malvados do México.

    "God's Middle Finger" é acelerado e cheio de detalhes intrigantes e ações esquisitas. Lê-lo vai fazer você querer ir ao seu encalço... ou correr o mais rápido possível na direção contrária. Em qualquer um dos casos, você haverá tido um aprendizado fascinante sobre um mundo estranho, mas não tão distante assim, que está inextricavelmente ligado ao nosso através de nossos apetites por alguns dos produtos que produz.

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