Matéria: As Marchas Mundiais da Maconha, parte II
No fim de semana passado, aconteceu o segundo ato das Marchas Mundiais da Maconha em duas partes deste ano, que visam celebrar a cultura canábica mundial e fazer pressão pela reforma na legislação sobre a maconha. Na semana passada, nos concentramos sobretudo na América do Norte; nesta semana, olhamos um pouquinho mais para o exterior.

marcha no Parque da Redenção em Porto Alegre
O maior evento ocorreu em Roma, onde os organizadores estimaram que a multidão reunida na Praça de São João era de 200.000 a 300.000. Em Roma, os manifestantes exigiram a revogação da lei de drogas L. 49 da Itália, da qual reclamaram que era "a mais dura no Ocidente”.
“O que queremos é a revogação da L. 49, o fim das prisões e do aumento das perseguições contra usuários e cultivadores autônomos, o direito ao alívio para os pacientes e o fim da campanha terrorista no estilo de 1930 contra todas as provas científicas na mídia e a reavaliação oficial das múltiplas propriedades desta planta antiga", disse Alberto Sciolari, organizador do evento em Roma.
A polícia e a mídia minimizaram os números, disse Sciolari, mas o evento foi enorme. “A praça estava totalmente lotada e ainda havia milhares de pessoas tentando entrar", informou. "Os sindicatos celebraram seu show do 1º de maio ali no fim de semana passado, a televisão falava de 'quase um milhão de pessoas’ presentes naquele momento e nossa multidão era apenas ligeiramente menor”.
Roma apareceu como o monstro das Marchas Mundiais da Maconha ao atrair 35.000 em 2007 e dobrar esse número para 70.000 no ano passado até arrebentar neste ano. Não é nenhuma surpresa, disse Sciolari. “Todo ano há um aumento vertiginoso em participantes, provavelmente porque é um evento regular e o pessoal aprendeu a esperá-lo com muita antecipação, além de contar tudo a seus amigos, sem muita necessidade de promoção. A data é fixa ano após ano, daí simplesmente é preciso confirmar se ainda ocorrerá apesar dos pesares e o pessoal fica feliz em comparecer”, disse.

cartaz da MMM de Atenas
“Sempre é grande em Roma”, disse Joep Oomen, coordenador da ENCOD, a Coligação Européia para Políticas de Droga Justas e Efetivas. “É como se fosse um evento anual para o país inteiro, embora alguns digam que a maioria vai mais pela festa do que por qualquer outra coisa”.
As coisas não foram nem de longe tão ativas na Antuérpia, cidade natal de Oomen, onde ele informou que umas 50 pessoas compareceram, ou até mesmo em Amsterdã, onde a multidão foi estimada entre 500 e 1.000 pessoas. Parte disso pode se dever à complacência em países com leis antidrogas relativamente permissivas, disse Oomen.
“As pessoas não percebem que ainda podem perder a liberdade delas até que seja tarde demais”, disse. “Mas assim que entenderem como é importante legalizá-la devem ficar mais ativas no movimento. Estas marchas podem servir de revelação para as novas gerações”.
Em Berlim, os organizadores que fizeram sua primeira Marcha Mundial da Maconha atraíram várias centenas de manifestantes, sendo que a multidão chegou a mais de mil ao alcançar seu destino final, um clube de reggae, onde a festa prosseguiu até altas horas da noite. Embora o organizador Mathias Meyer fizesse menção à decepção com o tamanho da multidão, vai fazer isso de novo no ano que vem.
“A marcha foi bastante boa”, informou. “A polícia foi muito calma e liberal. Um policial nos perguntou brincando onde estávamos escondendo as drogas, mas sorriu e continuou caminhando. Acho que foi bastante bom para a nossa primeira tentativa".

cartaz da MMM na Hungria
Atenas, radicalizada por semanas de combate de rua há alguns meses, foi o palco de uma das maiores marchas na Europa com mais de 15.000 presentes para o “protestival” organizado pela Iliosporoi, a Rede Jovem de InfoAção sobre Ecologia Sociopolítica.
“Foi mais do que bom – foi um momento perfeito da nossa vida”, informou um ativista anônimo da Iliosporoi. “No sábado, milhares de pessoas vieram manifestar com seus sorrisos e sua felicidade que as leis e a política de estado a respeito das drogas têm que mudar”, disse. “A chamada guerra contra as drogas – concebida nos EUA e imposta a quase todos os governos do mundo - surtiu efeitos muito piores sobre nossas sociedades do que aquele outro fracasso clássico dos EUA, a idéia assombrosa de ilegalizar o álcool", disse.
“Legalizamos a maconha em Atenas neste fim de semana”, prosseguiu. “Este festival celebrou a autonomia pessoal e social e a liberação do espaço público. Todos nós legalizamos a maconha sem esperarmos que as leis mudem”.
O Brasil também foi palco das Marchas Mundiais da Maconha com seis cidades que participaram das marchas brasileiras. No dia 03 de março, quase 500 pessoas marcharam em Florianópolis e 1.500 em Recife. No fim de semana passado, 2.000 pessoas, inclusive o ministro brasileiro do Meio Ambiente, marcharam no Rio de Janeiro, 250 em Belo Horizonte e 500 em Porto Alegre.
Em algumas cidades, os manifestantes brasileiros fizeram frente a ameaças das autoridades que queriam processá-los por “apologia do crime”, como têm feito nos anos passados. Rafael, um ativista porto-alegrense do Princípio Ativo, informou que os manifestantes haviam conseguido uma liminar de um juiz da região que protegia seu direito a expressar seus pontos de vista. Porém, isso não aconteceu em oito outras cidades brasileiras, onde as marchas foram canceladas enquanto apelações das proibições tramitavam na Justiça.
“Durante muitos anos, os ministérios têm proibido as marchas locais com acusações de que as pessoas estão envolvidas no tráfico de drogas ou de que 'são anônimas’”, explicou Rafael. “No ano passado, das 15 cidades, somente quatro tiveram marchas por causa das proibições, mas nenhum desses casos chegou a ser julgado mesmo porque as marchas já haviam acontecido, o que indica que os ministérios só queriam proibir as marchas. Neste ano, procederemos com esses casos, porque sabem que vão perder. Nosso direito constitucional a discutir as políticas de drogas supera qualquer ‘apologia do crime’”, disse.
No Rio, Carlos Minc, o ministro brasileiro do Meio Ambiente, se dirigiu à multidão em defesa do movimento pró-legalização. Embora dissesse que veio na qualidade cidadão privado, acrescentou que sempre participara das marchas e que não ia parar só porque era ministro.
Outro maio, outra rodada de Marchas Mundiais da Maconha. Como até os EUA presenciam os primeiros sinais de apoio à legalização alcançando a marca dos 50%, talvez logo, logo os manifestantes terão algo importantes para celebrar.












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