CHANGING MINDS, LAWS & LIVES CAMPAIGN

Edição #609, Nov 20, 2009

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    Matéria: OTAN e EUA aprofundam operações antidrogas no Afeganistão em tentativa de reprimir o Talibã

    As forças da OTAN e dos EUA que combatem insurgentes do Talibã e da Alcaida estão prestes a expandir seus trabalhos de luta contra a insurgência ao se envolver mais nas tentativas de suprimir o próspero tráfico de ópio do país. Ao fazê-lo, entram em uma situação complicada porque correm o risco de alienar grandes setores da população que dependem do comércio para alimentarem a si mesmos e suas famílias e conduzi-los diretamente ao tenro acolhimento do Talibã.

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    A nova postura antidroga mais agressiva acontecerá em duas formas. Por um lado, pela primeira vez a OTAN se comprometeu a visar e rastrear ativamente traficantes de drogas e laboratórios para o processamento de heroína. Por outro lado, as Forças Armadas estadunidenses que treinam os militares afegãos começarão a acompanhar soldados afegãos enquanto dão proteção a equipes de erradicação da papoula do governo afegão.

    Tal postura acontece ao passo que a situação político-militar no Afeganistão continua piorando. Uns 242 efetivos da OTAN e dos EUA foram mortos em combate por lá neste ano, 10 a mais do que no ano passado faltando dois meses e meio, e o ano passado foi o pior até agora para a Força Internacional de Assistência à Segurança (ISAF, na sigla em inglês). Uns 33.000 efetivos estadunidenses, inclusive 13.000 sob o comando da ISAF e 20.000 sob o comando direto dos EUA, e quase 40.000 soldados da OTAN estão agora no Afeganistão e o governo Bush quer que dispersem mais 20.000 efetivos estadunidenses lá no ano que vem.

    O Talibã e insurgentes relacionados têm mostrado cada vez mais aptidões militares, em parte porque conseguem se abastecer com os fundos gerados pelo tráfico de ópio. As Nações Unidas estimam que o Talibã e a Alcaida ganhem talvez $100 milhões ao ano com a tributação dos cultivadores de papoulas e a proteção aos narcotraficantes.

    Na semana passada, um esboço vazado de uma Estimativa da Inteligência Nacional dos EUA ainda não publicado revelou que as agências de inteligência estadunidenses acham que a guerra no Afeganistão está “desabando vertiginosamente”, sendo que uma parte do problema e o governo corrupto a mano do presidente Hamid Karzai e a outra está ligada ao “impacto desestabilizador” do narcotráfico.

    A situação cada vez pior impeliu Robert Gates, ministro da Defesa dos EUA, a se dirigir à Europa para intentar persuadir os integrantes relutantes da OTAN em prol de uma estratégia antidroga mais agressiva na semana passada. Os países europeus têm hesitado a respeito de se enfiar no lodaçal dos trabalhos antidrogas por lá com alusões ao risco de alienar a população e argumentos de que a imposição da lei é responsabilidade do governo afegão.

    “Parte do problema que enfrentamos é que o Talibã ganha algo entre os $60 e $80 milhões ou mais ao ano com o tráfico”, disse Gates em uma reunião da OTAN em Budapeste. “Se tivermos a oportunidade de ir atrás dos chefões e dos laboratórios de drogas e de tentar interromper este fluxo de dinheiro ao Talibã, acho que isso é um esforço de segurança legítimo”.

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    Phil Smith, editor da Crônica, em ex-aldeia cultivadora de papoulas perto de Jalalabad
    Na sexta-feira passada, a OTAN aderira. De acordo com uma nota à imprensa da OTAN no sábado: “Com base na solicitação do governo afegão, em conformidade com as resoluções cabíveis do Conselho de Segurança das Nações Unidas, segundo o plano operacional existente, a ISAF pode tomar providências em parceria com os afegãos contra instalações e facilitadores que apóiem a insurgência no contexto dos trabalhos antidrogas, sujeita à autorização dos respectivos países”.

    “A pedido do governo afegão, agradeço que o Conselho do Atlântico Norte tenha me dado a autoridade para expandir o papel da ISAF em operações antientorpecentes”, acrescentou o general estadunidense, John Craddock, comandante aliado supremo da OAN, em nota no mesmo dia. “Agora, temos o poder de avançar em uma região que afeta a segurança e estabilidade do Afeganistão. Isso nos permitirá reduzir o financiamento e receita dos insurgentes, o que incrementará a proteção da força de todo o pessoal da ISAF e das Forças de Segurança Afegãs”.

    Isso é o que Gates e o governo Bush querem ouvir. “Só vai fazer parte das operações militares normais. Isto não vai ser uma missão especial”, disse Gates no sábado, acrescentando que o esforço antidroga provavelmente ia se concentrar na região sul do país. “Começa com o comandante da ISAF, daí será uma questão de saber quais forças estão disponíveis. Lógico, os Estados Unidos e o Reino Unido estão interessados em fazê-lo. Acho que vários outros iriam querer, mas não se manifestaram”, disse. “Estou bastante quanto ao futuro”, disse Gates. “Também ficou acertado que a OTAN não pode fracassar no Afeganistão”.

    Nesse sentido, os EUA avançam mais um passo no combate afegão às drogas: Lançando mão de tropas terrestres para ajudar a erradicar as plantações de papoulas. O London Daily Mail, entre outros meios de comunicação, informou que um pequeno número de soldados estadunidenses que treinam a Força de Erradicação da Papoula do país vai acompanhar as cargas dela quando se dirigirem aos campos de papoulas por volta do início do novo ano.

    A intenção é a de objetivar a terra possuída por traficantes de influência afegãos corruptos, especialmente na província sulista de Helmand, que responde pela maior parte da participação de 93% do Afeganistão na produção mundial de ópio. Essa é uma área em que a presença talibã se faz sentir bastante. Uns 75 erradicadores afegãos foram mortos no ano passado.

    “Não deveria haver nenhuma zona proibida para as equipes de erradicação em Helmand e a fim de fazer isso vão precisar de mais proteção da força”, disse um funcionário antidroga do consulado britânico, cujo nome não foi revelado, ao Daily Mail. “Terras controladas por grandes latifundiários, funcionários corruptos ou grandes figurões no tráfico são terras que deveriam ser visadas. Contar com a proteção da força dá mais chances de possibilitá-lo”.

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    espécimes talhados de papaver (papoulas)
    Um porta-voz das Forças Armadas dos EUA disse ao Daily Mail que há 11 soldados estadunidenses treinando o Batalhão Antientorpecentes Afegão em Kandahar. Serão dispersos junto com soldados afegãos em missões de erradicação, disse.

    Há muito que os EUA têm sido a favor de trabalhos de erradicação mais enérgicos, mas foram rebatidos pelo governo Karzai quando apresentaram a idéia da fumigação aérea no início deste ano. Porém, como a erradicação manual exterminou somente 3,5% do cultivo neste ano, a pressão para fazer mais é forte. A questão é saber se fazer mais para combater o narcotráfico vai ajudar ou dificultar a tentativa de construir um governo forte e estável em Cabul.

    “Toda esta questão tem sido discutida em fóruns diferentes no Afeganistão já faz algum tempo”, disse Sher Jah Ahmadzai, colaborador do Centro de Estudos sobre o Afeganistão na Universidade do Nebrasca-Omaha. “O governo recusou a erradicação aérea por vários motivos, embora fosse desejada pelos EUA. Mas, esta providência da OTAN está sendo bem recebida pelo governo e as agências internacionais porque agora visam aos chefões do narcotráfico, não os próprios agricultores. Se os agricultores forem perseguidos, isso pode fazer com que a OTAN e o governo afegão fracassem, então perseguir os grandes chefões do tráfico é a opção viável no momento. Todos sabem quem são”, disse.

    Mas, nem todos os chefões do narcotráfico são iguais, disse Ahmadzai. “Há muitos chefões envolvidos no governo, há altos ministros que se acreditava terem sido chefões antes que fossem apontados, há uma série de pessoas nos governos provinciais que estão envolvidas, mas o governo não vai ir atrás delas porque isso pode criar uma reação violenta”, disse. “Porém, os outros chefões, os que apóiam abertamente o Talibã e a Alcaide, vão persegui-los”.

    Perseguir mesmo todos os narcotraficantes só seria factível em algum momento futuro com um Estado afegão mais forte, disse Ahmadzai. “A próxima fase seria fortalecer o governo afegão para que um expurgo possa ser feito”, disse.

    Mas, o ponto de vista de Ahmadzai é muito mais otimista do que o de alguns. Os que criticam a medida disseram que ela só pioraria a insurgência. “Os governos da OTAN disseram sim que vão tentar visar a operações de tráfico que pareçam ser coniventes com o Talibã e a Alcaida, o que torna esta mudança de políticas algo simplesmente desacertado em vez de famigeradamente desacertado”, disse Ted Galen Carpenter, vice-presidente de estudos sobre políticas de defesa e relações exteriores no Instituto Catão, de tendências libertarianas. “Mas pressionar a OTAN e o governo Karzai por causa disto simplesmente garante que vamos levar muita gente de volta aos braços do Talibã e essa estratégia é imprevidente”, argumentou.

    “Os estadunidenses estiveram treinando forças antidrogas afegãs, mas estavam criando problemas para o governo porque visavam direto aos agricultores e os agricultores iam direto ao Talibã”, concordou Ahmadzai. “Se os agricultores forem perseguidos, corre-se o risco de aliená-los. Caso contrário, o Talibã e a Alcaida lucram. Na verdade, é uma faca de dois gumes”.

    “O problema subjacente é que o narcotráfico é uma parte enorme da economia afegã”, disse Carpenter. “A ONU diz que tem umas 509.00 famílias envolvidas no cultivo ou outros aspectos do tráfico. Se somente se considerar uma família nuclear comum, é cerca de 15% da população envolvidos no narcotráfico, mas quando se considera que o Afeganistão é uma sociedade muito fundada nos clãs e uma extensão da família, o número real se aproxima mais de um terço ou de 40% da população se sustentando com o tráfico. Não tem jeito realista de cancelar isso”.

    Há uma alternativa, disse Carpenter. “Os legisladores estadunidenses podem fazer vista grossa, ignorar o comércio de drogas e se concentrar em tentar enfraquecer o Talibã e a Alcaide, nossos adversários mortais”, disse.

    Embora isso deixasse o Talibã e a Alcaida desimpedidos para se financiarem com os lucros do ópio, são conseqüências que teríamos de sofrer, disse Carpenter. “Sem dúvida, esses grupos auferem renda do narcotráfico, mas, infelizmente para nossa estratégia, os aliados de Karzai também. A maioria dos grandes traficantes de influência está envolvida de alguma maneira com o narcotráfico ilegal. É um empreendimento tão lucrativo por causa do ágio do mercado negro que qualquer um que exercer poder e influência naquela sociedade fica tentado a se envolver”.

    Observando que o plano da OTAN de perseguir somente os traficantes ligados à insurgência eliminaria mesmo a concorrência para os traficantes relacionados ao governo, Carpenter disse que a decisão não era surpresa nenhuma. “Não acho que seja um motivo intencional, mas, na medida em que o governo Karzai está interessado em cooperar, será precisamente porque vai eliminar a concorrência para os traficantes com respaldo em Cabul. Esperar que o governo de Cabul suprima verdadeiramente o tráfico seria como pedir ao Japão que elimine seus setores de automóveis e alta tecnologia. Isso não vai acontecer, não”, disse.

    E assim nos enfiamos mais no lodaçal.

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