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Edição #609, Nov 20, 2009

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    Editorial: Dois cachorros mortos, uma família traumatizada, outro dia no combate às drogas

    David Borden, diretor-executivo

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    David Borden
    Este boletim informativo informou ou opinou sobre a questão da paramilitarização do policiamento muitas vezes. Nesta semana, essa atrocidade aconteceu em meu próprio quintal, em sentido figurado. Às 19:00 na quarta-feira no diminuto subúrbio de Berwyn Heights em DC, uma equipe da SWAT da delegacia de polícia da Comarca de Prince Georges em Maryland tomou de assalto uma casa, matou dois cachorros, daí manteve um dos donos e sua sogra algemados no chão durante horas enquanto o sangue dos cachorros escorria ao redor deles.

    Por um acaso esse dono era o prefeito do município, um fato que chamou muita atenção ao incidente. Infelizmente, por mais irresponsáveis que fossem as ações do esquadrão antidroga e por mais trágico que fosse o resultado, absolutamente não é singular. Um estudo estimou o número de operações da SWAT em todos os EUA em cerca de 40.000 ao ano e a matança tanto de cachorros como de pessoas aconteceu muitas vezes. Uma mãe e filho que perderam o cão deles para uma equipe da SWAT se pronunciaram em uma entrevista com um de nossos partidários há dois anos.

    A lógica para a invasão da casa foi que se entregara ali um pacote de maconha – 14Kg500g dela. Foi mencionado, mas não se ponderou, na matéria que, na verdade, o pacote fora levado à casa pela polícia! A seqüência de acontecimentos tanto revela quanto dá náusea. No Arizona, um cão farejador de drogas cheirou maconha dentro de um pacote no correio que estava endereçado à mulher do prefeito. Os policiais trouxeram o pacote a Maryland e, disfarçados de carteiros, o entregaram na casa. A caixa ficou lá fora o dia inteiro. Quando o prefeito Calvo chegou à sua casa, trouxe a caixa para dentro, colocou-a perto da porta e subiu as escadas. Então, a equipe da SWAT tomou a casa de assalto, matou os cachorros e prendeu as pessoas.

    Há maneiras plausíveis pelas quais a família pode não ter tido nada a ver com o pacote, embora houvesse sido enviado por correio para ela, e Calvo e sua esposa não parecem ser transgressores. A polícia ainda não denunciou ninguém. Mesmo assim, vamos supor que alguém que mora na casa seja culpado. Isso justificaria as ações da polícia?

    Em absoluto. A idéia de que um homem que volta para casa e move um pacote de sua varanda à sua sala devesse ocasionar uma operação da SWAT de parte de uma equipe que literalmente estivera esperando às furtadelas para vê-lo mexer o pacote é criminalmente insensata. Eles não esperaram que o pacote entrasse por causa de algum fim tático. Esperaram porque queriam utilizar a ação de trazer o pacote para dentro como prova. Literalmente tiveram o dia inteiro para conceberem algum jeito de poder revistar a casa sem assassinarem seus cachorros! Nem sequer tinham de levar o pacote para a casa – já possuíam o endereço com qual ele fora marcado. Simplesmente podia ter chamado os indivíduos para um interrogatório ou realizado uma busca comum ou mandado de prisão, aguardado que o prefeito Calvo e sua esposa passassem e abordá-los na rua, quase qualquer outra coisa, menos o que fizeram.

    Quanto às provas, mover o pacote para o lado interno do umbral é inútil de qualquer jeito, ou deveria sê-lo. Você traria um pacote que chegou por correio para dentro, talvez até abrindo-o para ver o que contém? Fazê-lo não prova nada sobre o que você sabe do conteúdo. Então até essa lógica fraca cai aos pedaços.

    Patrick Murphy, o chefe de polícia do município que não estava envolvido na operação nem fora informada dela, expressou palavras de sabedoria depois do ocorrido: “Você não vai me dizer que o chefe de polícia de uma municipalidade não teria podido bater à porta do prefeito dessa municipalidade, ganhar sua confiança e entrar na residência”, disse ao Washington Post. “Não teria sido necessário matar os cachorros deste homem a bala”. Queria mesmo que os agentes antidrogas o houvessem consultado primeiro, assim a tragédia teria sido prevenida.

    Mas, enquanto a ação é ainda mais desajuizada por ter sido a casa do prefeito, seria um erro considerá-lo o motivo para não lançar mão de uma equipe da SWAT. Na verdade, entrar em uma casa desse jeito é desnecessário e, portanto, condenável, quase sempre. As equipes da SWAT são pensadas para situações de emergência ou de alta intensidade – com reféns e por aí vai -, não para a repressão às drogas de rotina. Porém, mesmo se houvesse havido 90 quilogramas, ainda não haveria pretexto. Invadir um lar deste modo põe em perigo as pessoas, os animais e a propriedade sem razão se é que existe alguma outra maneira de lidar com a situação.

    Dois cachorros mortos, uma família traumatizada – outro dia no combate às drogas.

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