Matéria: Injetódromo de Vancouver luta pela vida dele – de novo
O único injetódromo sancionado oficialmente na América do Norte, o InSite de Vancouver, terá que fechar as portas no dia 30 de junho se o governo federal canadense não estender a sua isenção da Lei de drogas e substâncias controladas [ Controlled Drugs and Substances Act] do Canadá. Mas, embora o governo conservador do primeiro-ministro Stephen Harper não tenha mantido em segredo que não gosta do programa, conta com bastante apoio comunitário, municipal, provincial e internacional e seus defensores tomam parte presentemente em uma forte campanha para garantir seu prosseguimento.

InSite (por cortesia da Vigilância Sanitária Litorânea de Vancouver)
Mas agora, após cinco anos de monitoração e avaliação, chegaram os resultados: De acordo com estudos científicos revisados por pares, o InSite aumentou a utilização de serviços de tratamento da dependência, aumentou a utilização dos serviços de desintoxicação, reduziu a partilha de seringas, resultou em melhorias na ordem pública e na qualidade de vida do bairro, não resultou em nenhum aumento na criminalidade relacionada com as drogas, impediu óbitos por overdose y ajudou a reduzir a proliferação do HIV/AIDS entre injetores de drogas.
Como se os cerca de vinte estudos do InSite não fossem o bastante, no ano passado o governo conservador encarregou o seu próprio estudo, “O serviço INSITE de Vancouver e demais injetódromos supervisionados: O que se aprendeu com a pesquisa?” [Vancouver's INSITE service and other Supervised injection sites: What has been learned from research?], lançado no início de abril. De acordo com o criminologista Neil Boyd da Universidade Simon Fraser, quem foi contratado pelo governo para avaliar o comitê que supervisionava o estudo, a pesquisa mostra que o InSite não causa impactos negativos aparentes, resultou em “diminuições modestas” no consumo de drogas e não perturbou a ordem pública.
De fato, disse Boyd em uma coletiva de imprensa para anunciar suas descobertas, o InSite não só deveria prosseguir, mas o programa deveria ser expandido a outras localidades. “Acho que nossos dados indicam... que a construção de mais instalações de tipo parecido em bairros em que são necessárias renderia benefícios que excedem em muito os custos exigidos para tais projetos”, disse.
Isso é improvável no governo Harper, que é ideologicamente contrário a tais práticas de redução de danos e que, na verdade, tirou verbas do seu orçamento antidrogas. Como disse Harper no último mês de outubro: “Porque se continuar viciado, tanto faz quanto dano seja reduzido, você vai ter uma vida curta e infeliz”.
Harper também caçoou das provas empíricas quando entram em conflito com a pauta dele. Em discurso a correligionários em janeiro, zombou dos oponentes que citavam estatísticas sobre a criminalidade em queda ao questionarem a ênfase dele na ordem pública. “Tentam pacificar os canadenses com estatísticas”, disse o primeiro-ministro. “Suas experiências e impressões pessoas estão erradas, dizem; na verdade, a criminalidade é um problema”.
Mais recentemente, o ministro Tony Clement da Saúde e seus subordinados fizeram pronunciamentos parecidos. A ciência não seria o único fator para determinar se a isenção do InSite deve continuar, disse o parlamentar Steven Fletcher de Winnipeg, subministro de Clement, a The Canadian Press no início deste mês. Embora o governo tome uma “decisão racional e considerada fundada na ciência”, também deve levar em conta “as realidades da situação”, explicou Fletcher.
Quando pressionado no Parlamento pela parlamentar Libby Davies de Vancouver Leste, defensora acérrima do InSite, Clement prometeu tomar uma decisão antes de 30 de junho e respondeu suas críticas a respeito de recusar a ciência que dá sustentação ao programa dizendo: “Somos o governo que realmente quer mais pesquisa, que realmente encarregou mais pesquisa porque queremos garantir que esta decisão seja a certa para o Canadá, para os dependentes e para a comunidade em Vancouver”, disse. “Essa é a decisão que tomamos, mais pesquisa e mais ponderação. Isso acontece porque temos a cabeça aberta e queremos tomar a melhor decisão para o Canadá e os canadenses”.
Agora, como a data-limite se aproxima no dia 30 de junho, os partidários do InSite se mobilizaram. Neste mês, o International Journal of Drug Policy já publicou artigos de cientistas do mundo todo que condenam o governo federal canadense por interferir politicamente na investigação do local, Boyd realizou a entrevista coletiva dele em Ottawa, os defensores levaram a cabo um comício em um parque do Downtown Eastside com 1.000 cruzes brancas para simbolizar as pessoas que não morreram de overdose de drogas enquanto injetavam no InSite, enfermeiras de rua de Vancouver fizeram piquetes no escritório do Sindicato da Polícia de Vancouver, cujo presidente é um crítico destacado do injetódromo, Debra MacPherson, presidenta da Associação de Enfermeiras da Colúmbia Britânica, realizou uma coletiva de imprensa para promover os benefícios do InSite para a saúde e os três partidos cívicos da CB deram mostras do apoio conjunto deles ao programa.
“Apoiamos totalmente a tentativa de manter o InSite aberto”, disse David Hurford, diretor de comunicação do prefeito Sam Sullivan de Vancouver. “Faz parte da solução, não do problema e é uma solução de base vinda de baixo. O governo federal disse que apóia o processo decisório de base, então, por que burocratas a 5.000 km de distância tomam decisões por nós aqui?” perguntou.
A prefeitura “colabora com os interessados locais para ajudar a comunicar os benefícios do InSite”, disse Hurford. “Escrevemos ao ministro da Saúde na semana passada para lhe pedir que mantenha o lugar aberto e, no mínimo, estenda as autorizações até que todas as questões jurídicas pendentes sejam vistas”.
Hurford se refere à ação que tramita nos tribunais da Colúmbia Britânica para impugnar a competência do Ministério da Saúde do Canadá sobre o InSite. Ela argumenta que, como segundo a lei canadense o atendimento à saúde pertence às províncias, o governo federal não deve ter controle sobre o InSite. Mas, a ação não será acordada até o fim do mês que vem.
Os políticos da oposição também se somaram à polícia. “Este governo escolhe ver a redução de danos como se não passasse de um palavrão às custas de proteger a segurança e a saúde dos canadenses”, disse a Dr.ª Hedy Fry, uma parlamentar liberal que desempenhou um papel fundamental em tratar o acordo que permitiu que o InSite abrisse. “Isto conseguiu apoio generalizado não só de especialistas no Canadá, mas da comunidade científica internacional, da polícia de Vancouver e dos moradores do Downtown Eastside”, disse a Dr.ª Fry. “É simplesmente irresponsável ignorar provas fundadas na ciência da eficácia de programas de redução de danos como estas e basear as políticas públicas apenas na ideologia porque pessoas de carne e osso sofrem as conseqüências”.
“O governo conservador deve parar sua interferência inconcebível na pesquisa científica sobre o injetódromo de Vancouver”, acrescentou a parlamentar Libby Davies pelo Novo Partido Democrata, quem representa o Downtown Eastside. “Os pesquisadores médicos da Universidade da Colúmbia Britânica revelaram que Harper e a equipe dele estiveram suprimindo provas e negando verbas a cientistas que examinam objetivamente os méritos do InSite”, disse.
“Foram publicados mais de 20 estudos médicos e acadêmicos que mostram os benefícios sanitários e sociais do InSite. Agora, temos tanto fatos quanto provas científicas de usuários em nossa comunidade de que esta instalação está ajudando, não prejudicando as pessoas de nossa cidade. Os registros de pesquisa mostram que o InSite salva vidas e aumenta a segurança pública”, prosseguiu Davies. “Harper não entende que não dá para esconder os fatos sempre que não concordarem com a agenda política dele. Precisamos de uma mudança de direção. É hora de que este governo tome decisões baseadas em provas em vez da ideologia – é preciso manter o InSite aberto”.
“O que queremos é uma renovação de três anos e meio da isenção da Lei de substâncias controladas”, disse Nathan Allen do InSite for Community Safety. “O fato de que o governo Harper não tenha concedido esta renovação mostra que reluta muito em apoiar a comunidade”.
Embora o governo Harper tenha dito anteriormente que precisava de mais pesquisa para avaliar a eficácia do InSite, nisso ninguém mais acredita, disse Allen. “Já gastaram mais de $1.5 milhão estudando o InSite, apresentaram mais de vinte trabalhos acadêmicos e concluíram que causa todo tipo de impacto positivo. Perguntamo-nos quais questões o governo ainda tem a fazer”, disse zombando. “O InSite passou pelo crivo mais completo e bem financiado de qualquer clínica de saúde no país”.
Caso o governo se negue a outorgar outra isenção, Allen disse que esperava que respeitasse a autoridade provincial e a autonomia municipal. “Tem sido uma resposta regional a uma crise local aqui em Vancouver. Precisamos deixar que o pessoal por aqui faça o que precisa fazer. Senão, as pessoas vão morrer”, previu francamente.
O tempo do InSite está acabando, mas a pressão sobre o governo Harper se acumula. As próximas semanas vão determinar se ela basta para superar a oposição ideológica do governo ao injetódromo.























