Não há necessidade de provas? A guerra contra a Salvia divinorum esquenta – Vídeo do YouTube contribuem
Há cerca de um ano, informamos sobre as tentativas crescentes de proibir a Salvia divinorum em estados e municipalidades pelos EUA afora. Desde então, a guerra contra a planta alucinógena só tem-se intensificado, apesar da falta de qualquer prova de que o consumo dela esteja generalizado ou de que surta qualquer efeito físico nocivo sobre seus usuários.

folhas de sálvia (por cortesia de erowid.org)
Alimentados em grande parte pela aparição de jovens intoxicados com sálvia no YouTube (havia uns 3.500 deles conforme a última contagem), o desejo reflexivo da força pública de proibir qualquer substância psicotrópica e os anseios dos legisladores de “fazer alguma coisa” a respeito do consumo de drogas entre os jovens, as tentativas de proibir a planta estão se espalhando. Embora alguns estados se tenham detido em limitar o consumo de sálvia a adultos, sendo a última vez no Maine, mais a proibiram logo de uma vez. Também se apresentaram medidas legislativas que a afetam em mais 16 estados, assim como em uma série de municípios e cidades.
Em 2005, a Luisiana virou o primeiro estado a proibir a sálvia, convertendo-a em uma substância controlada proscrita de Classe I. Desde então, Delaware, Michigan, Missuri, a Dacota do Norte e o Tennessee se somaram à lista. (O Tennessee proíbe a ingestão – é contravenção de Classe A -, mas não o porte. Todos os demais, à exceção da Dacota do Norte, a colocaram na Classe I.) Em Oklahoma, apenas a sálvia concentrada é proibida. Ela também é fiscalizada na Austrália, Bélgica, Dinamarca, Estônia, Finlândia, Itália, Espanha e Suécia.
A imprensa também tem desempenhado um papel em avivar o medo da sálvia e fazer declarações erradas sobre a popularidade dela. "Salvia: The Next Marijuana?" [Sálvia: A próxima maconha?], perguntou a Associated Press em um artigo bastante reimpresso no início deste mês.
Chris Bennett, proprietário da Urban Shaman Ethnobotanicals no centro de Vancouver, riu do meme “a sálvia é a próxima maconha”. “Qualquer um que o disser demonstra sua total falta de conhecimento seja da sálvia, seja da maconha”, disse. “Simplesmente não tem comparação. A cânabis é um relaxante suave e um estimulante, enquanto a sálvia é uma substância visionária de ação muito rápida pela qual o pessoal informa experiências extracorporais”.
Os pesquisadores dizem que embora os efeitos da sálvia sobre a consciência possam ser inquietantes, não se demonstrou que a planta seja tóxica para humanos, os efeitos dela são tão potentes que é improvável que seja consumida várias vezes e sua propriedade ativa, a salvinorina-A, pode auxiliar no desenvolvimento de remédios para transtornos do estado de ânimo. Embora seja improvável que providências no âmbito estadual afetem a pesquisa, uma medida da DEA para colocá-la na lista de substâncias controladas pode fazê-lo.
Há riscos em se meter com alucinógenos, indicou um especialista rapidamente. “É um alucinógeno e embora suas ações alucinógenas sejam diferentes das induzidas pelo LSD e demais alucinógenos, conta com desvantagens que os alucinógenos têm”, disse Bryan Roth, professor de farmacologia na Faculdade de Medicina da Universidade da Carolina do Norte, o homem que isolou a salvinorina-A. “Quando o pessoal a consome fica desorientado. Seria uma experiência ruim não saber onde se está enquanto se dirige um carro”.
Contudo, disse Roth, embora possa fazer você viajar, não vai te matar. “Não há provas de qualquer toxicidade patente, não há informes no material de medicina de que alguém tenha morrido por causa dela. Adverte-se que não houve nenhum estudo formal feito com humanos, mas os dados obtidos com pesquisas em animais indicam que não mata animais que recebem doses enormes e isso costuma - mas não sempre – ser uma previsão para a farmacologia humana”.
A DEA esteve avaliando a sálvia durante vários anos, mas não há sinais de que esteja pronta para tomar providências. “A sálvia é uma droga que examinamos atualmente para ver se deveria ou não ser classificada”, disse Rogene Waite, uma porta-voz da DEA encarregada de avaliar as possíveis “ameaças” das drogas. A agência deu início ao processo de avaliar os oito fatores listados na Lei de substâncias controladas [Controlled Substances Act] para determinar se a droga deve ser classificada ou não, disse ela. “Não há prazo ou limite de tempo neste trâmite”, disse, sem dar mais pista nenhuma acerca de quando ou se é que a DEA tomaria providências para agregar a sálvia à lista federal de substâncias controladas.
Mas, legisladores pelo país afora não vão esperar a DEA. Na Califórnia, o deputado Anthony Adams (R-Hesperia) apresentou um projeto que proibiria a sálvia para menores a pedido da Chefatura de Polícia da Comarca de San Bernardino, disse ele ao Riverside Press-Enquirer. “Se houver a oportunidade de ficar no caminho de uma droga emergente, acho que, cáspite, isso deveria ser feito”, disse Adams, cujo distrito inclui San Bernardino e Redlands.
Do outro lado do país, o deputado Vinny deMacedo (R-Plymouth) do Estado do Massachusetts está co-patrocinando uma lei que criminalizaria o porte de sálvia. “Ao não ilegalizarmos esta droga, acho que dizemos aos nossos jovens que está tudo bem e uma droga que surte tais efeitos psicotrópicos sobre um indivíduo não deveria ser considerada legal de jeito nenhum”, disse deMacedo ao Plymouth News.
Como já se disse, os legisladores tomaram providências depois de serem alertados pela polícia. DeMacedo disse que concordou em propor o projeto após ter notícias do xerife Joseph MacDonald da Comarca de Plymouth. “Nunca ouvira falar dela antes”, disse deMacedo. “Cria uma euforia psicotrópica meio psicodélica, parecida com o LSD. Pensei: ‘Você está brincando. Algo assim é legal?’”
Na Flórida, a deputada Mary Brandenburg quer salvar as crianças mandando qualquer um que portar sálvia para a cadeia por até cinco anos. “Assim que ilegalizarmos uma droga, os garotos começam a procurar outras que possam comprar legalmente. Esta é apenas a próxima”, explicou.
Embora os legisladores tentem se precaver proibindo qualquer nova substância possivelmente psicotrópica agora de uma vez, seus trabalhos estão mal orientados, disse Bennett da Urban Shaman. Os garotos do YouTube podem ser o rosto público da sálvia, mas são apenas a minoria dos usuários, disse. “É de todas as idades”, disse, acrescentando que sua loja não vende a menores de 18 anos. “Sempre que há alguma atenção da mídia, vem um bando de gente de meia-idade pedindo-a”.
A sálvia não é uma droga de festa, disse Bennett. “Os consumidores mais sérios são pessoas que procuram uma experiência xamanística clássica e visionária como parte do caminho espiritual delas. Sentem que estão acessando um nível mais alto de consciência”, explicou. “E parece que até eles não a consomem mais do que uma vez por mês mais ou menos”.
Por todo o bafafá a respeito da sálvia, há pouquíssimas provas de dano real a qualquer um, disse Bennett. “Percebe-se que não se ouve ninguém falar de dano orgânico ao organismo humano”, disse. “É puro medo e ódio a pessoas que têm uma experiência visionária”.
Os poucos dados existentes sobre o consumo de sálvia e seus efeitos tendem a lhe dar razão. Não constam mortes por consumo de sálvia, salvo a de um adolescente de Delaware que cometeu suicídio em 2006 em algum momento depois de usá-la. (Esse jovem infeliz é muito citado pelos defensores da proibição da sálvia, embora não exista uma onda concomitante de suicídios relacionados com a sálvia. Além disso, segundo se informa, ele tomava um remédio para a acne relacionado com a depressão e estivera consumindo álcool.) Os usuários não aparecem nunca em prontos-socorros de manicômios ou hospitais.
Embora os garotos do YouTube possam apresentar um rosto público problemático do consumo de sálvia, não há muito a se fazer a esse respeito, disse Bennett. “Não dá para controlá-lo”, encolheu os ombros. “E daí? Alguns garotos têm uma experiência visionária poderosa durante cinco minutos no YouTube. Por que isso é mais ameaçador do que ver alguém na selva beber daime ou algo na National Geographic?”
De sua parte, Bennett não se interessa pela proibição da sálvia – nem a de qualquer outra planta, já que tocamos no assunto. “Possuímos o direito natural fundamental a ter acesso a todas as plantas e não dou a mínima se é a sálvia ou a maconha ou a papoula ou a coca. É tão claro como o nosso direito ao ar e à água”, disse.
Mas, em geral, os legisladores nos EUA não comungam com a perspectiva de Bennett. Pelo contrário, tentam de modo reflexo proibir o que não entendem. E os mesmos “garotos” que afirmam estar salvando serão os que vão para a cadeia.
















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