CHANGING MINDS, LAWS & LIVES CAMPAIGN

Edição #609, Nov 20, 2009

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    Mortes por superdoses de drogas aumentam vertiginosamente – Tem alguém olhando?

    De acordo com um relatório de janeiro pouco percebido dos Centros para o Controle e a Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), as superdoses de drogas mataram mais de 33.000 pessoas em 2005, o último ano para o qual há dados firmes disponíveis. Isso torna a superdose de drogas a segunda maior causa de morte acidental, perdendo apenas para os acidentes com veículos motorizados (34.667) e ganhando das mortes por arma de fogo (30.694).

    O mais perturbador é que os dados de 2005 são só os últimos em um incremento aparentemente tão inexorável como esse em mortes por superdose que, em comparação, as épocas das epidemias de heroína nos anos 1970 e a onda do crack nos anos 1980 são irrisórias. De acordo com os CDC, uns 10.000 morreram de superdose em 1990; por volta de 1999, esse número alcançara 20.000 e, nos seis anos entre aquele então e 2005, aumentou em mais de 60%.

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    a naloxona, o antídoto para a superdose de opiáceos
    “O número de vítimas equivale a cem 757s batendo e matando todos a bordo todo ano, mas isto não vira notícia”, disse Dan Bigg da Chicago Recovery Alliance, uma organização de redução de danos que proporciona serviços de troca de seringas e outros a consumidores de drogas. “Tantas pessoas morreram e nós não estamos nem aí”.

    Felizmente, alguns se importam. Reducionistas de danos como Bigg, alguns profissionais da saúde pública e um punhado de epidemiologistas, inclusive os dos CDC, estiveram observando a tendência em alta com cada vez mais inquietação e algumas organizações reformadoras das políticas de drogas dedicam alguma energia a medidas que podem fazer com que esses números caiam.

    Porém, como indicou em fevereiro Mike Males, o sociólogo da juventude e antigo crítico do fascínio presunçoso do establishment das políticas de drogas com o consumo de tóxicos entre adolescentes, a reação oficial e da imprensa ao relatório dos CDC tem sido de “completo silêncio”. É porque o pessoal errado está morrendo, argumentou Males: “A toxicomania que eclode e se concentra em estadunidenses de meia-idade está matando dezenas de milhares e hospitalizando centenas de milhares todo, destruindo famílias e comunidades, submetendo centenas de milhares de crianças a abuso e abandono e lotando sistemas de abrigo temporário a pontos incontroláveis, fomentando a violência armada entre traficantes de bairros carentes, incitando uma epidemia de criminalidade de meia-idade e prisões que custam aos estadunidenses dezenas de bilhões de dólares ao ano e, agora, criando uma epidemia de toxicomania derivada entre adolescentes e adultos jovens. Contudo, porque a epidemia de drogas atual é de adultos brancos de meia-idade – uma população poderosa que “não deveria consumir drogas abusivamente” – a mídia e os funcionários não podem falar sobre ela. A regra rígida da mídia e do oficialismo: Drogas SÓ podem ser discutidas como crise de jovens e minorias”.

    Os números dão razão a Males. Não só os estadunidenses morrem de overdose de drogas em número nunca dantes vistos, são as pessoas de meia-idade – não os jovens – quem mais estão morrendo. Além disso, em sua maioria, não sofrem overdoses de heroína ou cocaína, mas de Oxycontin [oxicodona], Lorcet [hidrocodona] e outros opiáceos criados para o controle das dores, mas desviados com freqüência para o mercado negro lucrativo originado pela proibição.

    Em outubro passado, o epidemiologista Leonard Paulozzi dos CDC deu ao Congresso uma amostra do que o relatório de janeiro sustentou. Os índices de mortalidade por drogas “são atualmente mais do que o dobro do que eram durante os anos de mortalidade máxima por crack no início dos anos 1880 e quatro a cinco vezes mais altos do que os índices durante o pico da mortandade por heroína em 1975”, disse em depoimento perante o Comitê de Supervisão e Investigações da Câmara.

    “As estatísticas da mortandade indicam que estas mortes se devem sobretudo ao consumo indevido e abusivo de medicamentos receitados”, prosseguiu Paulozzi. “Tais estatísticas são respaldadas por estudos dos registros de médicos-legistas do estado. Tais estudos informam com coerência que uma alta porcentagem das pessoas que morrem de superdose de medicamentos receitados têm antecedentes de toxicomania”.

    Mas, isso é mais complexo do que uma mera correlação entre aumentos na prescrição e consumo abusivo de analgésicos opiáceos e um índice de mortalidade crescente, disse o Dr. Alex Kral, diretor do Programa de Saúde Urbana da RTI International, uma grande organização sem fins lucrativos em matéria de saúde. Kral, quem esteve realizando pesquisas epidemiológicas sobre as superdoses de opiáceos durante 15 anos, disse que há vários fatores presentes.

    “Não houve um grande aumento no consumo de heroína”, disse. “O que mudou foi o consumo de opiáceos receitados. Provavelmente, o Oxycontin é uma grande parte da resposta. As empresas farmacêuticas propuseram versões boas e altamente úteis de opiáceos, mas elas também foram desviadas e consumidas ilicitamente de maneira epidêmica durante os últimos 15 anos”.

    Porém, Kral também apontou para o recurso ao aprisionamento massivo e ao tratamento forçado de infratores da legislação antidrogas enquanto concausa. “O que acontece é que as pessoas que consomem opiáceos são presas ou encarceradas e se abstêm da droga, mas quando saem e começam a consumir de novo, o fazem nos mesmos níveis que antes e não têm o mesmo tipo de tolerância. Sabemos que a soltura prematura da cadeia ou prisão é um fator de alto risco para a superdose”, disse.

    “A última peça do quebra-cabeça é o tratamento da farmacodependência”, disse Kral. “Além dos problemas de tolerância das pessoas que estiveram se abstendo no tratamento, tem havido um aumento no consumo de metadona e buprenorfina, o que é bom, mas o pessoal está conseguindo sofrer superdose com elas também”.

    Há meios de reduzir o número de vítimas, disseram vários reducionistas de danos, e o Narcan [naloxona], antídoto para os opiáceos, foi mencionado por todos eles. A naloxona é parte considerável da resposta, disse Bigg da Chicago Recovery Alliance. “Tem 40 anos de existência, é um antídoto puro e não possui efeitos colaterais. Ela anula consistentemente as superdoses via injeção intramuscular; é muito simples administrá-la. Se as pessoas portarem naloxona, é muito, muito mais fácil evitar mortes por superdose”.

    “A naloxona deveria ser oferecida sem receita médica”, disse Bigg. “Enquanto isso, sempre que um médico prescrever opiáceos, também deveria receitar naloxona”.

    “Durante dois anos estivemos falando de tentar reclassificar a naloxona para que seja oferecida sem receita médica ou talvez prescrita por um farmacêutico”, disse Hilary McQuie, diretora ocidental da Harm Reduction Coalition. “O problema é que não só é necessário movimento no Congresso, mas também é preciso lidar com o processo da FDA e é difícil encontrar alguém na comunidade ativista que entenda esse trâmite”.

    Os reducionistas de danos também têm de lidar com o aspecto cambiante das superdoses de drogas. “Estamos acostumados a tratar consumidores de drogas injetáveis”, admitiu McQuie, “e, a na verdade, ninguém tem uma boa iniciativa para tratar com consumidores de medicamentos receitados. Em nossas reuniões lobistas sobre a proibição de financiar a troca de seringas de parte do governo federal, começamos a conversar sobre isto, especificamente a respeito de espalhar a naloxona”.

    Mas, embora a epidemia de superdose preocupe o movimento, ninguém quer gastar dinheiro para fazer com que os números caiam. “É uma questão muito importante, os profissionais da redução de danos a levam muito em conta”, disse McQuie. “Mas, não o divulgamos muito na imprensa porque não há verbas para a prevenção à superdose. Temos um programa muito bom em São Francisco para treinar diretores de hotéis residenciais e consumidores de drogas em trocas de seringas. É muito barato; custa apenas $70,000, inclusive a naloxona. Mas, não conseguimos interessar os financiadores nisto. Redigimos propostas de financiamento para fazer este tipo de trabalho ao redor do estado e nunca recebemos dinheiro”.

    Perversamente, o Gabinete de Política Nacional de Fiscalização das Drogas dos EUA também é contrária a fazer com que a naloxona seja de fácil acesso – com base em que é um risco moral. “Para começar, não concordo com dar um antídoto para opiáceos a profissionais não-médicos. Isso é o primeiro”, disse Bertha Madras, vice-diretora de redução de demanda do ONDCP em janeiro. “Simplesmente não acho que seja uma boa política de saúde pública”.

    Porém, pior ainda, Madras argumentou que a oferta de naloxona pode incentivar consumidores de drogas a continuarem consumindo-as porque temeriam menos as superdoses. Além disso, prosseguiu, a superdose pode ser justamente o que o médico ordenou para os usuários. “Às vezes ter uma superdose, estar em um pronto-socorro, ter esse contato com um profissional da saúde é o bastante para fazer com que uma pessoa perceba a realidade da situação e faça que alguém lhe forneça serviços”, disse Madras.

    “A secretaria antidrogas argumenta que se tirarem as possíveis conseqüências, neste caso, uma superdose fatal, o consumo é facilitado, mas apostar a vida de alguém nisso é simplesmente cruel e bizarro”, bramou Bigg.

    Kral da RTI observou que agora há 44 programas de naloxona administrados por grupos comunitários pelos EUA afora. “Seria uma maravilha se houvesse mais deles, porque estão evitando muitas mortes, mas são polêmicos. O ONDCP diz que justificam o consumo de drogas, mas não dá para reabilitar um usuário de drogas morto”.

    Embora as lutas pelo acesso à naloxona continuem, disse Bigg, é possível fazer outras coisas. “Precisamos engajar as pessoas e isso quer dizer superar a vergonha”, disse Bigg. “A cada dois meses, recebo uma ligação de uma família que perdeu um parente para a droga e lhe pergunta se está disposta a se oferecer e conversar com os repórteres para impedir que isso volte a acontecer e me diz ‘vou pensar no assunto’ e nunca mais tenho notícias dela”.

    Outro meio de reduzir a mortalidade seria começar organizações locais de pessoas cujos amigos ou parentes tenham morrido ou ainda consomem ou correm risco. “Podemos chamá-las de ‘O primeiro, primeiro’, o que quer dizer que, primeiro, vamos manter os nossos vivos”, sugeriu.

    “Quando as pessoas descobrirem que há naloxona disponível, que é um remédio que não surte efeitos ruins – não surte efeito nenhum a menos que se esteja consumindo opiáceos -, que não dá para consumi-la abusivamente e que seu parente podia tê-la tomado e ainda estar vivo, é difícil se dar conta disso”, disse Bigg. “Todos os que tiverem perdido um ente querido o querem de volta e é difícil aceitar que ainda podia estar vivo hoje se houvesse naloxona”.

    A despeito da aparente discrição de grupos reformadores das políticas de drogas, eles também estiveram lutando na frente das superdoses. “Trabalhos para aprovar projetos inovadores sobre a prevenção à superdose na Califórnia e no Novo México”, disse Bill Piper, diretor de assuntos nacionais da Drug Policy Alliance. “Trabalhamos para fazer com que projetos de prevenção à superdose progridam em Maryland e Nova Jérsei. Houve um projeto de lei em 2006 no Congresso que teria criado um programa federal de subsídios para a prevenção à superdose”, disse ele com mordacidade, acrescentando que não se investe nem sequer um dólar do governo federal nesse tipo de prevenção. “Tentamos apresentá-lo no novo Congresso, mas não conseguimos achar alguém que tome a iniciativa. Francamente, poucos políticos se importam com a questão. Os funcionários deles se importam ainda menos”.

    É preciso uma enorme campanha de conscientização pública, disse Piper, acrescentando que a DPA prepara um relatório sobre este mesmo tema que deve aparecer em algumas semanas.

    No ínterim, enquanto políticos e burocratas do combate às drogas afastam o olhar deles e possíveis doadores endinheirados mantêm suas bolsas hermeticamente fechadas, enquanto os EUA se preocupam com jogadores de beisebol tomando esteróides e adolescentes fumando maconha, os cadáveres se amontoam feito lenha.

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