TRUTH CAMPAIGN 08

Edição #555, Oct 10, 2008

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    Sem alívio em vista: Ocupação militar em Reynosa não dá trégua em violência de combate às drogas

    Na última providência em sua guerra corrente contra os poderosos cartéis violentos do narcotráfico mexicano, no mês passado, o presidente Felipe Calderón mandou uns 6.000 soldados e policiais federais mexicanos às cidades em seu lado da Bacia do Rio Bravo, de Novo Laredo a Matamoros. Desarmaram as forças públicas municipais, que, em geral, são suspeitas de estarem na folha de pagamento dos traficantes, estabeleceram postos de fiscalização entre e dentro das cidades e estão realizando patrulhas regulares em Reynosa e outros lugares.

    http://stopthedrugwar.org/files/reynosa-hidalgo.jpg
    cruzamento de fronteiras entre Reynosa e Hidalgo (por cortesia de portland.indymedia.org)
    A operação contra os municípios fronteiriços de Tamaulipas aconteceu depois de um ano sangrento no ano passado. De acordo com o Centro de Estudos Fronteiriços e Promoção dos Direitos Humanos, A. C. (CEFPRODHAC, na sigla em espanhol) de Reynosa, a violência relacionada com a proibição das drogas deixou um saldo de 67 vidas em cidades fronteiriças tamaulipecas no ano passado. Mas, foi apenas depois de um tiroteio violento no Rio Bravo (entre Reynosa e Matamoros) no mês passado, o qual resultou em vários traficantes mortos e cerca de uma dúzia de soldados feridos, e de ataques retaliatórios do cartel contra patrulhas do exército no centro de Reynosa um dia depois que Calderón mandou os soldados.

    Desde então, a ocupação militar estropiou a economia – e especialmente a vida noturna – de Reynosa e outros municípios fronteiriços da bacia, mas isso não parou a matança. De acordo com o CEFPRODHAC, até terça-feira, outras 18 pessoas foram mortas na guerra tamaulipeca às drogas até este momento do ano, respondendo em conjunto pela grande maioria dos 25 assassinatos. Em Reynosa, neste ano 12 dos 14 homicídios da cidade mantiveram relação com o combate às drogas, inclusive um no domingo à noite.

    Se o exército não deteve a matança, quase parou a economia turística da cidade. Vários donos de bares e clubes na Zona Rosa, a área turística perto da ponte internacional, disseram que haviam recebido ordens de soldados ou policiais de fechar às 22:00. Também disseram que isso quase não fazia diferença, pois os negócios não vão lá das pernas mesmo.

    “Costumávamos atender texanos que vinham para festejar”, disse um proprietário que pediu para não ser identificado. “Agora não vêm mais. Não querem ser assediados pelos soldados”.

    “Os trabalhadores em alguns dos setores mais sórdidos de Reynosa – prostitutas, funcionários de clubes de striptease, táxis-piratas – até encabeçaram uma marcha de protesto há duas semanas, reclamando que a ocupação dificultava a vida deles. (Dois homens de negócios de Reynosa que se negaram absolutamente a se manifestar publicamente afirmaram que a marcha foi respaldada pelos traficantes, mas essa acusação ainda não foi provada.)

    Embora o recurso de Calderón ao envio do exército – mais de 20.000 efetivos foram dispersos a zonas de conflito no ano anterior – tenha conseguido elogios em Washington e até algum apoio entre os reynosenses cansados da violência, ele também resulta em uma alta em abusos dos direitos humanos, de acordo com o CEFPRODHAC. “Recebemos 11 denúncias de abuso desde que os soldados vieram”, disse Juan Manuel Cantú, diretor do escritório de documentação do grupo. “Um no Rio Bravo e 10 aqui. As pessoas reclamam que os soldados entram ilegalmente em suas casas, que as torturam, que roubam as coisas – aparelhos eletrônicos, joalheria, até alimentos. Os soldados acham que estão em guerra e que todos aqui na fronteira são traficantes”, reclamou Cantú.

    O CEFPRODHAC compila e arquiva devidamente as queixas, disse Cantú, mas não espera muito que os militares tomem providências para lidar com elas. Os militares inauguraram uma direção-geral de direitos humanos no mês passado, mas até agora adiantou pouco, disse. “Até agora, não há justiça. Quando as queixas vão à Secretaria da Defesa Nacional do México [SEDENA, na sigla em espanhol], sempre dizem que não há violações dos direitos humanos”.

    Quando os abusos chegam às mãos da polícia ou dos militares, as vítimas ou familiares pelo menos apresentam queixas, mesmo se não esperam resultados. Porém, quando se trata de abusos de parte dos traficantes, o temor de retaliação é grande demais para que as vítimas ou seus parentes denunciem. “As pessoas não querem falar desses crimes”, disse Cantú. “Não querem falar conosco nem com as organizações oficiais dos direitos humanos, não querem falar com os militares, não querem falar com a polícia federal. Se sentem ameaçadas pelos traficantes”.

    Comparadas com Brownsville e McAllen no lado texano, Reynosa, Matamoros e as demais cidades no lado mexicano fazem parte de uma conurbação binacional que conta com uma população conjunta da ordem dos três milhões. (Cerca de 700.000 pessoas na área de McAllen, 400.000 na área de Brownsville, 700.000 em Matamoros, outras 500.000 em Reynosa e algumas dezenas de milhares espalhadas entre umas e outras). O espanhol é o idioma ouvido com maior freqüência nos dois lados da fronteira. Embora a ocupação militar e a violência do combate às drogas (em sua maioria) estejam restringidas ao lado mexicano, o tráfico e o combate às drogas são sentidos nos dois lados, embora de maneiras diferentes.

    Mike Allen é vice-presidente da Comissão Fronteiriça do Texas, uma entidade não-governamental que procura representar o interesse de funcionários eleitos no lado texano do Rio Grande. Entre as principais preocupações da comissão estão a facilitação do tráfico entre as fronteiras e o repúdio a respostas que julga estúpidas a inquietações com a segurança na fronteira.

    O número um da lista de queixas da comissão é o plano do muro fronteiriço, que deve cruzar o sul do Texas, forçando donos de terras a passar por portões distantes para chegar a partes da propriedade deles que ficam além da cerca e, de acordo com funcionários municipais descontentes, prejudicando o ambiente sem cumprir seu propósito declarado de controlar a fronteira. Agora, os funcionários e donos de terras municipais estão metidos em querelas legais com o Ministério da Segurança Nacional dos EUA enquanto ele ameaça exercer a expropriação para seqüestrar propriedades para o muro.

    “O muro é um enorme desperdício de dinheiro”, disse Allen. “Os que moram por aqui sabem disso. Os mexicanos passam por cima, por baixa ou dão a volta. Mas é preciso lembrar que 99% das pessoas que cruzam essa fronteira tentam conseguir emprego. Não são criminosos nem terroristas nem traficantes”.

    Mas, alguns deles são, reconheceu, apontando para seus próprios compatriotas. “Temos tanto tráfico por aqui porque há muitos cidadãos estadunidenses consumindo drogas”, disse Allen. “Não importa o que façamos – o tráfico vai continuar de um jeito ou de outro porque há tal demanda nos EUA”.

    O tráfico não afetou adversamente as economias locais, disse Allen. Talvez dizer isso seja minorar a situação. Embora a Bacia do Rio Grande conte com altos índices de pobreza, também tem torres de escritórios reluzentes, numerosos bancos, lojas de especialidades caras, tráfico barulhento e centros comerciais gigantes como La Plaza em McAllen, em que a loja de JC Penney fica aberta vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana e onde todos – tanto clientes quanto empregados – parecem estar falando espanhol.

    “Temos mais bancos aqui do que 7-11s”, disse Celerino Castillo, ex-agente da DEA e habitante da bacia, enquanto dava uma risadinha com pesar. “Era para ser uma área pobre, mas todos dirigem Escalades”.

    Porém, embora o tráfico não tenha prejudicado os negócios ao longo da fronteira, a violência relacionada com a proibição das drogas que o acompanha os lesou – nos dois lados da fronteira. “As pessoas ouvem falar desses tiroteios e não querem cruzar a ponte para o México e isso quer dizer que algumas delas não vão vir para cá”, disse.

    E embora se falem muito da corrupção no México, isso vale para os dois lados, disse Castillo, que atraiu a atenção pública pela primeira vez quando denunciou a entrega de drogas relacionada com os EUA e vinda da Base Aérea de Ilopango de El Salvador durante a guerra centro-americana dos anos 1980 em seu livro Powderburns.

    “Há corrupção em ambos os lados da fronteira”, disse Castillo. “O combate às drogas não se trata de detê-las; trata-se de encher os bolsos. Por isso este pacote milionário de ajuda é pura besteira. Estivemos travando esta guerra durante 30 anos e estamos pior que quando começamos”.

    Castillo expõe armas com regularidades na área vendendo antigualhas da época do Vietnã e ele disse que vive se encontrando com integrantes de cartéis por ali. “Sempre aparecem procurando armamento”, disse, “junto com militares mexicanos. Vai muita gente”.

    Alguns revólveres são muito procurados por integrantes de cartéis, disse Castillo. “Eles gostam muito da belga FN Herstal P90 porque podem raspar o número de série com facilidade”, explicou. “Estes saem por $1,000 no varejo, mas os compradores de cartéis vêm e pagam $2,500 por elas e quem quer que as faça passar pela fronteira recebe $4,000 por arma”, disse.

    Outras armas e munições mais pesadas não estão à venda no mercado civil, mas isso apenas quer dizer que os cartéis utilizam outras redes, disse Castillo. “As armas pesadas, os lança-granadas, as quantidades enormes de munição apenas estão à venda em lojas de armas militares, por aqui ou na América Central. Vendemos toneladas de armas ao Exército salvadorenho e acho que vão e as vendem aos cartéis”.

    O tráfico prospera com a pobreza dos dois lados da fronteira, disse um observador local. “Em realidade, dá para investir muito dinheiro na polícia, mas o pessoal tem que comer, o pessoal tem que sobreviver”, disse Marco Dávila, professor de criminologia na Universidade do Texas em Brownsville. “Se não houver emprego, é preciso fazer algo. Não é só o tráfico, também há prostituição, roubo e outras formas de desvio”.

    Em ambos os lados da Bacia do Rio Grande, o necessário mesmo é um verdadeiro auxílio, não enormes programas antidrogas para a força pública, disse Dávila. “É possível pôr esse dinheiro onde quer que seja, mas se as pessoas ainda sofrem, não se saberá se vai dar certo. As pessoas que precisam do dinheiro não são a polícia nem os soldados”, disse.

    Cantú do CEFPRODHAC concordou com essa avaliação. “Esse dinheiro não vai nos deixar seguros”, disse. “Não vai fazer nada de bom. Se os soldados receberem a ajuda estadunidense, isso só vai significar mais violência. Estão preparados para a guerra, não para o trabalho de polícia. Precisamos é de programas de conscientização e prevenção às drogas, mesmo aqui no México, mas especialmente nos Estados Unidos”, disse. Quando indagado sobre a legalização das drogas, Cantú estava disposto a ponderá-la. “Poderia parar a violência”, refletiu.

    No lado texano, disse Dávila, uma cultura de pobreza pega gerações inteiras de latinos pobres. “Olhe só para estes garotos em Brownsville”, disse. “Não têm nenhuma esperança. Desistiram. Não falam em dar duro. Dizem: ‘Somos gângsteres, vamos vender drogas’. As pessoas costumavam ter tatuagens da Virgem de Guadalupe, mas agora ela foi substituída pelo Scarface”.

    Do outro lado do rio, a pobreza também impulsiona o tráfico – assim como a imigração ilegal. “Os mexicanos estão quebrados, assustados e famintos. Não têm mais nada”, disse Dávila. “Se não quiserem passar para o comércio ilegal, como o tráfico, cruzam a fronteira do jeito que for. As pessoas põem suas vidas em jogo para cruzarem esse rio”, disse.

    E muitas delas estão sofrendo as últimas conseqüências. De acordo com relatórios de observatórios dos direitos humanos de Reynosa, 75 seriam os imigrantes afogados no Rio Grande entre Novo Laredo e Matamoros no ano passado. Outros cinco já se afogaram neste ano.

    E assim estão as coisas na fronteira mexicana. Assim como estiveram durante os últimos 20 anos, quando, em mais outro exemplo cru da lei das conseqüências imprevistas, o presidente Reagan nomeou o vice-presidente George Bush a dirigir uma força-tarefa designada para bloquear as rotas caribenhas de contrabando de cocaína. A partir desse momento, o que anteriormente haviam sido operações de contrabando relativamente pequenas, locais e familiares levando carregamentos de maconha aos EUA começou a se transformar nos monstros conhecidos como cartéis.

    O México e os Estados Unidos estão inextricavelmente entrelaçados. A solução para os problemas da toxicomania e do tráfico violento do mercado negro vai ter de ser conjunta. Porém, poucos observadores no lugar acham que investir mais dinheiro no combate do México às drogas seja a resposta.

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