Editorial: A guerra às drogas tem muitas constantes, mas não é uma
David Borden, diretor-executivo

David Borden
Uma questão assim, simultaneamente mundana (devido à sua onipresença) e espetacular (também devido à onipresença), é a da corrupção policial impulsionada pelos lucros e outros incentivos criados pela proibição das drogas. Das 50 edições que publicamos no ano passado, 46 delas incluem informes das “estórias de policiais corruptos desta semana” e três das quatro semanas que não os tiveram aconteceram quando o Phil estava viajando no Peru e na Bolívia. Espere que a proibição corrompa ininterruptamente as instituições do nosso país e também as de outros países e instituições globais até que as drogas sejam legalizadas.
Outra questão é a dos preços de rua para comprar drogas ilegais, um barômetro do impacto da guerra às drogas, embora seja defeituoso. A teoria é a de que, ao se atacar a fonte das drogas, ao se fazer a interdição e prender traficantes, a oferta de drogas será reduzida e o preço delas vai aumentar, o que, por sua vez, reduz a demanda. A questão apareceu no ano passado quando a secretaria antidrogas teve a cara-de-pau de se gabar de um aumento “inédito” nos preços da cocaína em 2007 em comparação com 2006. Como apontaram analistas em resposta, não é inédito – não é inédito mesmo, aquilo foi literalmente uma mentira deslavada – e, mais importante ainda, tais aumentos foram totalmente esmagados pelas quedas nos preços que aconteceram durante a maior parte dos anos. Como apontei em um editorial no semestre passado, em termos reais o preço médio de rua da cocaína nos EUA caiu à razão de cinco desde o início dos anos 1980 quando o programa de rastreamento dos preços foi instaurado. Espere que a guerra às drogas continue não alcançando os seus resultados prometidos – mesmo quando medidos segundo os seus próprios termos – até a guerra às drogas terminar.
Falando na secretaria antidrogas – conhecida formalmente como Gabinete de Política Nacional de Controle das Drogas ou ONDCP, uma sucursal da Casa Branca -, 2007 presenciou a publicação de um livro revelador que detalha um leque impressionante de tergiversações de fatos e estatísticas de parte do ONDCP em seus relatórios anuais ao longo dos últimos anos. Felizmente – e de modo atípico -, os grandes veículos de comunicação, inclusive a NPR e o Washington Post repreenderam o ONDCP pelo esquema dele a respeito da coca. Infelizmente, foi apenas uma das tramóias propagandísticas que o ONDCP realizou desde que o livro de denúncia chegou às estantes das lojas no último mês de março. Como apontou o novo vice-diretor da agência nesta semana, a equipe do governo atual tem “mais um ano” para fazer o trabalho. Duvido que a equipe do próximo governo se saia muito melhor, apesar de quem vencer nas eleições, mas nunca se sabe. Se o secretário antidrogas de Bill Clinton com mais tempo de serviços prestados servir de indício, não o fará.
As circunstâncias mais constantes da guerra às drogas também são as mais trágicas: o cotidiano lúgubre atrás das grades, as dores do paciente, dia sim, dia não, pela negação de remédio; o desespero da criança que cresce em um bairro deteriorado pela pobreza e assolado pela violência do tráfico. O nosso dever é lembrar-nos das vítimas silentes da proibição todos os dias, contar as suas estórias a todos os que quiserem ouvi-las; comparar a crueldade da guerra às drogas com o trabalho, a compaixão e a esperança constantes.
Quando chegar o momento oportuno, as mudanças por que trabalhamos vão vir. E esse será mesmo o artigo de maior destaque do ano.












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