Matéria: Bush revela o Plano México e propõe pacote de ajuda antidrogas de $1.5 bilhão
Na terça-feira, o presidente Bush solicitou formalmente $550 milhões do Congresso para a ajuda antidrogas ao México e à América Central no ano que vem. O requerimento de financiamento é apenas a primeira prestação de um pacote de ajuda de dois ou três anos que deve totalizar $1.4 bilhão aproximadamente. O financiamento foi incluído no último projeto complementar de financiamento para as guerras no Iraque e no Afeganistão, sendo que o teto desta foi estipulado em $46 bilhões.
“Isso entrega uma ajuda vital aos nossos parceiros no México e na América Central que estão trabalhando para dispersar os cartéis do narcotráfico, combater o crime organizado e deter o tráfico de seres humanos”, disse Bush na Casa Branca, logo após de ligar para o presidente mexicano Felipe Calderón.

Bush e Calderón
“Embora espere com ansiedade a renovação do plano antientorpecentes para o México e a América Central, o Congresso não foi consultado quando o plano foi desenvolvido. Não é um bom jeito de começar um esforço tão importante para combater o aumento no tráfico e na violência na região”, disse o deputado Eliot Rangel (D-NY), presidente do Subcomitê da Câmara sobre o Hemisfério Ocidental, que realizou uma audiência a propósito da proposta na quinta-feira. “Espero que o governo seja mais aberto com os congressistas agora que anunciou o plano”, acrescentou, com rispidez.
O pacote antidrogas enfrenta o ônus adicional de pertencer à lei de diretrizes orçamentárias para a guerra no Iraque, altamente impopular. Nancy Pelosi (D-CA), a líder da maioria na Câmara, deu mostras de que a aprovação da lei de diretrizes orçamentários na íntegra pode ser difícil na Câmara. Mas, por outro lado, a líder democrata na Câmara disse isso antes e a guerra continua sendo financiada.
O México é o principal produtor de maconha e metanfetaminas importadas para os EUA a fim de abastecer os insaciáveis mercados norte-americanos. Junto com a Colômbia, produz a maior parte da heroína consumida nos EUA e é o principal canal para a cocaína sul-americana destinada a esse país.
O México também é a cena de um antigo estado de guerra que aparentemente sempre se intensifica entre as organizações rivais do narcotráfico – os chamados cartéis – pelo controle do rentável negócio bilionário e também entre os cartéis e o estado mexicano. Mais de 2.100 pessoas, inclusive cerca de 200 policiais e militares, morreram na guerra às drogas do México até este momento do ano, fazendo com que 2007 esteja prestes a ser o ano mais sangrento até agora.
O presidente mexicano Felipe Calderón conseguiu o louvor dos combatentes das drogas estadunidenses por tomar medidas agressivas contra os cartéis desde que tomou posse em dezembro. Desde então, mandou uns 25.000 efetivos do exército a cidades como Tijuana, Mazatlán e Acapulco, além de estados cultivadores de drogas de suma importância. Embora o governo afirme incrementar as prisões e apreensões, as drogas continuam fluindo, assim como o sangue. O governo de Calderón anunciou que está se preparando para gastar $7 bilhões no prosseguimento do combate às drogas além da oferta de ajuda dos EUA.
Na América Central, os problemas são parecidos, embora de menor escala. Embora o México seja assolado pela violência hipervalentona de grupos como os zetas, uma unidade de elite formada por ex-combatentes antidrogas que passaram para o lado de lá e se meteram em matanças espetaculares e horrendas de advertência, a América Central enfrenta as gangues, grupos como a Mara Salvatrucha, composta inicialmente pelos filhos dos refugiados salvadorenhos nos EUA que aprenderam o ofício gângster no norte antes de voltarem às suas pátrias para aplicarem as suas aptidões recém-descobertas.
O México receberá 90% do pacote estadunidense, uns $500 milhões, enquanto que $50 milhões serão destinados a países centro-americanos. O pacote de ajuda ao México, que esteve sendo negociado entre funcionários estadunidenses e mexicanos durante meses, incluirá verbas para helicópteros, barcos, aviões de reconhecimento, cães farejadores de drogas e equipamento de telecomunicação militares. Também custeará o treinamento de policiais e efetivos mexicanos envolvidos na interceptação de carregamentos de drogas a caminho dos Estados Unidos. Mas, diferentemente do Plano Colômbia, o programa subsidiário bilionário de combate às drogas e à insurgência com o qual é comparado com freqüência, o pacote não pede que mais militares ou contratistas estadunidenses trabalhem no México.
A reação da América Latina e de analistas das políticas de drogas em Washington foi do crítico ao preocupado. “À primeira vista, muitíssimo disto parece ser um desperdício de dinheiro”, disse Adam Isaacson, diretor de programa no Center for International Policy. “Há cerca de $200 milhões para barcos e helicópteros para a interdição. Isso é melhor do que gastar dinheiro na fumigação de cultivos, mas, na verdade, é brincar de gato e rato. O que necessitamos mesmo é reduzir a demanda”.
“Os EUA têm a obrigação moral de ajudar o México a lidar com a violência relacionada com as drogas por causa das políticas e do consumo estadunidenses”, disse Maureen Meyer, sócia para México e América Central do Gabinete em Washington para Assuntos Latino-Americanos (WOLA, sigla em inglês). “Mas é preciso deixar claro que, embora este pacote possa causar um impacto positivo no curto prazo sobre o narcotráfico e a violência no México, não se deveria esperar que contivesse o fluxo de drogas para os Estados Unidos”.
“Este pacote de cooperação reflete o reconhecimento crescente do governo Bush da partilha de responsabilidade dos Estados Unidos pelo tráfico e a violência relacionada com as drogas no México”, disse Joy Olson, a diretora-executiva do WOLA. “Lidar com este problema não é algo que devesse enfrentar sozinho. Mas, a cooperação é uma rua de duas mãos”, apontou Olson. “Apesar de que o pacote mencione uma quantidade indeterminada de dinheiro para reduzir o consumo de drogas no México, não foi acompanhado por nenhuma iniciativa federal de peso para diminuir a demanda de drogas nos Estados Unidos”.
“Uma das razões pela qual estamos nesta confusão é que os nossos políticos acreditaram que era uma ótima idéia ajudar governos estrangeiros a travar a guerra às drogas junto conosco; então, treinaram unidades de elite mexicanas no combate às drogas há duas décadas”, advertiu Sanho Tree, diretor do Projeto de Políticas de Drogas no Institute for Policy Studies.
“O problema é que não tinham como garantir a lealdade dos efetivos que treinaram e se esqueceram que a proibição das drogas corrompe em igualdade de condições”, prosseguiu Tree. “Enfim, uma unidade de elite treinada pelos EUA chamada zetas passou para o lado de lá e virou o capanga do Cartel do Golfo. Quando se ouve falar de batalhas com metralhadoras e bazucas em Novo Laredo, é que o nosso Frankenstein está voltando para nos assombrar. Agora, o governo Bush – que nunca aprende com a história – quer repetir a calamidade”.
“A proposta de ‘intensificação’ da guerra contra as drogas do presidente Bush custará caro demais aos contribuintes, não vai dar certo e poder aumentar a violência tanto no México quanto nos Estados Unidos”, disse Bill Piper, diretor de assuntos nacionais da Drug Policy Alliance. “As estratégias a respeito da demanda fracassaram para a cocaína, a heroína, a maconha e virtualmente todas as drogas às quais têm sido aplicada (inclusive o álcool durante a Lei Seca). Princípios econômicos fundamentais demonstram o porquê: contanto que exista uma forte demanda de drogas, haverá uma oferta para abastecê-la. Mesmo se tivesse sucesso, o Plano México de Bush só se sairia bem em valorizar a cocaína, aumentar os lucros dos grandes cartéis das drogas e incentivar a entrada de mais elementos criminosos no lucrativo mercado da cocaína”.
Tais inquietações e críticas foram repetidas ao sul da fronteira. “Não vai adiantar ter mais helicópteros porque você está sozinho combatendo o lado armado dos cartéis. Você tem que persegui-los pelo lado das suas finanças e encontrar as contas bancárias deles; assim é possível enfraquecê-los”, disse Ernesto Mendieta, assessor em segurança e ex-promotor antidrogas do México. “Rastrear esse dinheiro consome tempo e não chega aos noticiários, mas é preciso fazer isso”, disse Mendieta à Reuters.
“Não é a solução mágica. Ajudará, mas é preciso inteligência, infiltrados e não dá para conseguir isso só com dinheiro” disse Jorge Chabat, professor do Centro de Pesquisa e Docência Econômica (CIDE, sigla em espanhol), à mesma agência.
Porém, esse tipo de afirmação deixa Isaacson do CIP um pouquinho nervoso. “Estamos preocupados com os aspectos de inteligência e vigilância disto”, disse. “Quem vai receber isto? Como são treinados? Até que ponto estas agências estão infiltradas pelos traficantes? Quais são os antecedentes delas em direitos humanos? Estamos muito preocupados com este aspecto do pacote”, disse.
O WOLA também tinha lá as suas inquietações, especialmente com a falta de detalhes a respeito de algumas facetas do plano. A organização quer garantir que o pacote de ajuda não acabe subvertendo a democracia na região. “Se os subsídios forem enviados diretamente às forças militares dos países beneficiários, o plano pode solapar a fiscalização civil das forças armadas e enfraquecer os trabalhos de fortalecimento das instituições civis de segurança pública”, observou o grupo.
Agora, a medida vai ao Congresso, onde as primeiras audiências já entraram em andamento. Pelo menos um observador, Isaacson do CIP, acha que vai passar pelo processo. “Este Plano México vai ser examinado com muito cuidado”, disse. “Será aprovado, embora às custas de ser alterado radicalmente”, disse.
Mas não vai ter muita importância, sugeriu. “Sobretudo, há muitíssimo dinheiro a ganhar e é a demanda da nossa população consumidora de drogas o que o torna uma orientação profissional atraente para o pessoal no México”.















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