Sudoeste asiático: EUA aumentam pressão para fumigar plantações de papoula, o governo afegão resiste - até agora
Já faz muito tempo que os guerreiros antidrogas dos EUA têm querido desencadear aspersões de herbicidas enquanto arma para impactar o cultivo próspero de papoulas do Afeganistão, mas o governo afegão do presidente Hamid Karzai - junto com uma série de aliados na OTAN - tem resistido firmemente às súplicas estadunidenses. No entanto, devido à colheita recordista de papoula do país neste ano, os estadunidenses estão aumentando a pressão, mas em vão até agora.

os artigos do traficante de ópio (foto do editor da Crônica, Phil Smith, durante uma visita ao Afeganistão em setembro de 2005)
Para os estadunidenses, erradicar a papoula é uma meta fundamental no Afeganistão, não só por razões tradicionais das políticas de drogas, mas porque parte dos lucros do cultivo, estimados em $3 bilhões neste ano, acaba financiando a insurgência talibã através dos impostos que os rebeldes cobram de agricultores e mercadores.
Mas, para o governo Karzai e alguns países da OTAN que têm efetivos no Afeganistão, além de alguns elementos-surpresa do governo dos EUA, dentre eles o Pentágono e a CIA, uma imensa campanha de erradicação aérea corre o risco de desestabilizar o governo afegão ao alienar os agricultores e empurrá-los para os braços pacientes do Talibã. O governo afegão também tem levantado inquietações sanitárias e ambientais a respeito da utilização generalizada de herbicidas químicos, particularmente de glifosato ou Roundup, o veneno que os estadunidenses estão repassando.
Durante pelo menos dois anos, uma cavalgada de altos funcionários estadunidenses, inclusive o presidente Bush, a secretária de Estado Condoleezza Rice, o assessor de segurança nacional Stephen Hadley e o secretário antidrogas John Walters, se reuniu com Karzai para tentar convencê-lo a mudar de postura - em vão. Em abril deste ano, o governo Bush nomeou William Wood como novo cônsul em Cabul, pouco tempo depois de ter passado um período de quatro anos como cônsul na Colômbia, cena da maior campanha de erradicação aérea respaldada pelos EUA contra um cultivo de droga. Em agosto, funcionários estadunidenses começaram a aumentar a pressão.
"Sem dúvida, a erradicação aérea é a saída mais eficaz", disse Thomas Schweich, vice-secretário de Estado para assuntos internacionais de entorpecentes e repressão legal, em uma entrevista coletiva de agosto em Cabul. "É só entrar e conseguir grandes quarteirões de terra em um período muito curto de tempo. É fazê-lo com uma perda mínima de vidas, já que não é preciso lutar para entrar nem lutar para sair. É não negociar nunca com ninguém", disse.
"Estamos trabalhando para convencer ministros-chave e o presidente Karzai a aceitarem esta estratégia", disse um funcionário estadunidense "que não quis ser identificado em razão da sensibilidade política da questão" ao New York Times nesta semana. "Queremos convencê-los a dar mostras de um pouco de poder. O governo tem de mostrar o seu poder nas províncias remotas".
Neste fim de semana, funcionários do Departamento de Estado tomaram a medida incomum de mandar um de seus principais especialistas em erradicação de cultivos a Cabul para intentar persuadir o governo afegão que o glifosato é seguro. O especialista, Charles Helling, assessor científico sênior do gabinete de assuntos internacionais de entorpecentes e repressão legal do departamento, se encontrou com funcionários afegãos que foram contrários publicamente à utilização de herbicidas para suprimir a papoula.
"Ele está aqui para explicar o que é e como funciona. Está aqui para discutir a ciência do glifosato, não para persuadir alguém que deveria estar fumigando de aviões ou algo assim", disse um funcionário anônimo da embaixada à Reuters. Mas a implicação era clara: O glifosato é seguro e deveria ser adotado pelo governo afegão.
Mas, até esta semana, os afegãos não estavam acreditando nisso não. "Recusamos a fumigação da papoula no Afeganistão por bons motivos: o efeito sobre o meio ambiente, outros cultivos menores e a genética humana", disse o ministro em exercício para operações antidrogas, o General Khodaidad, ao
Guardian na terça-feira. "Foi uma discussão muito amigável, mas é difícil mudar a nossa opinião", acrescentou. "Ouvimos os especialistas deles e eles ouviram os nossos e, enfim, aceitaram que o nosso ponto de vista não ia mudar. A nossa responsabilidade é com o povo do Afeganistão".
Contudo, a pressão está aí. Insinua-se que o governo Karzai possa procurar aliviar parte disso permitindo um projeto de fumigação limitada do solo na próxima primavera, mas, até agora, os afegãos continuam firmes.

















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