Matéria: Enquanto a produção afegã de papoulas cresce vertiginosamente, aumenta a pressão pela erradicação aérea e maior envolvimento dos militares ocidentais
Como era de se esperar, o Escritório das Nações Unidas contra as Drogas e o Crime (UNODC, sigla em inglês) anunciou na semana passada que a produção afegã de papoulas alcançara outra alta histórica. O anúncio acontece contra um pano de fundo de altos níveis contínuos de violência entre os talibãs revigorados em parte pela infusão do dinheiro do narcotráfico e as forças combinadas dos EUA/OTAN/Afeganistão enquanto a insurgência continua se regenerando.
O aumento na produção de papoulas está servindo de pretexto para pedidos cada vez mais estridentes dos estadunidenses para responder com uma imensa campanha de erradicação da papoula - aérea, de preferência. Agora, há sinais de que a oposição firme do governo Karzai à fumigação aérea está enfraquecendo. Mas, os especialistas em políticas de relações exteriores dos EUA, Afeganistão, drogas e conflito contatados pela Crônica da Guerra Contra as Drogas disseram todos que tal campanha seria contraproducente - na melhor das hipóteses.

os artigos do traficante de ópio (foto do editor da Crônica, Phil Smith, durante uma visita de setembro de 2005 ao Afeganistão)
Agora, o Afeganistão abastece cerca de 93% da papoula do mundo, uma alta em relação aos estimados 92% do ano passado.
O UNODC informou que o número de províncias livres da papoula aumentara de seis no ano passado para 13 neste ano. Apontou que a produção diminuíra no centro-norte do Afeganistão, onde os caudilhos da Aliança do Norte reinam supremos, mas explodira no leste e no sudeste - precisamente as áreas em que a presença do Talibã é mais forte. Metade da oferta mundial vem de uma única província afegã, Helmand no sudeste, onde, não por coincidência, o Talibã tem conseguido "controlar vastas faixas de território" apesar dos trabalhos de deslocamento dos efetivos afegãos e da OTAN.
"O cultivo da papoula está relacionado inversamente com o grau de controle do governo", disse o diretor do UNODC, Antonio Maria Costa, em uma declaração que foi lançada juntamente com o relatório. "Onde reinam as forças antigoverno, florescem as papoulas. O problema da papoula afegã parece desanimador, mas ainda há esperança", acrescentou.
Costa convocou o governo afegão e a comunidade internacional a fazer um esforço mais determinado para lutar contra as "ameaças gêmeas" da papoula e da insurgência, inclusive mais recompensas para agricultores ou comunidades que abandonem a papoula e mais sanções contra aqueles que não o fizerem, e atacar a corrupção relacionada com a proibição que torna o governo Karzai tão conivente no tráfico de ópio quanto qualquer outro ator. [Ed.: É lógico, Costa não usou a palavra proibição - mas deveria tê-la utilizado.]
Ele também convocou a OTAN a se envolver mais nas operações antidrogas, algo que tem detestado fazer. "Como as drogas estão financiando a insurgência, os militares do Afeganistão e seus aliados têm interesse em destruir os laboratórios de heroína, fechar os mercados de ópio e levar os traficantes à Justiça. A aceitação tácita do tráfico de ópio está solapando os trabalhos de estabilização", disse.
Mas, nesta semana, a OTAN não parecia comovida. "Estamos fazendo o melhor possível, pedimos aos demais que façam mais", disse o subsecretário-geral de Operações da OTAN, Jim Pardew, em uma coletiva de imprensa em Bruxelas na quarta-feira. "Em primeiro lugar, o combate aos entorpecentes é uma responsabilidade afegã, mas precisam de ajuda".
O porta-voz da OTAN, James Appathurai, acrescentou que: "A OTAN não tem ordem de ser uma força de erradicação nem se propõe a isso. A erradicação é uma parte de uma estratégia complexa".
A reticência da OTAN se deve em parte ao número crescente de baixas. Até este momento do ano, 82 efetivos da OTAN foram mortos no Afeganistão, de acordo com a página I-Casualties, que rastreia as forças estadunidenses e aliadas mortas e feridas tanto no Iraque quanto no Afeganistão. Esses mais 82 soldados dos EUA, pelo menos 500 Policiais Nacionais Afegãos, numerosos soldados do Exército Afegão, centenas - se não milhares - de insurgentes e centenas de civis.
Em todo o ano passado, 98 efetivos dos EUA e 93 da OTAN foram mortos; em 2005, 99 efetivos dos EUA e 31 da OTAN foram mortos; e em 2004, só 52 soldados dos EUA e seis da OTAN morreram. A tendência é agourenta e como o apoio público à intervenção na guerra da papoula é fraco na Europa e no Canadá, a relutância da OTAN em envolver-se mais profundamente reflete a realidade política em casa.
Não acontece o mesmo com o governo dos EUA. Há menos de um mês e antecipando uma safra recordista neste ano, o governo lançou a sua Estratégia antientorpecentes dos EUA para o Afeganistão. A estratégia pedia a integração da luta contra a insurgência e os entorpecentes, o recurso à erradicação em massa e o aumento da utilização dos militares estadunidenses na batalha contra a papoula.
"Há um vínculo claro e direto entre o narcotráfico ilícito e os grupos insurgentes no Afeganistão", disse o relatório do Departamento de Estado. O Pentágono "trabalhará com a DEA" e demais agências "para desenvolver opções para uma estratégia coordenada que integre e sincronize as operações antientorpecentes, particularmente a interdição, na estratégia geral de segurança".
Há muito que os funcionários do governo Bush têm feito pressão pela erradicação aérea e o relatório do UNODC jogou lenha na fogueira. No domingo, o primeiro vice-presidente afegão, Ahmed Zia Massoud, rompeu com o presidente Karzai ao pedir uma "abordagem mais forçada" para fazer frente às papoulas "que têm-se espalhado como o câncer", como Karzai e ele disseram. "Devemos passar da erradicação terrestre à fumigação aérea", escreveu ele no London Sunday Telegraph.
Mas, o governo britânico discorda. Os altos funcionários do Ministério de Relações Exteriores do Reino Unido dispensaram ditos apelos, dizendo que "é difícil imaginar circunstâncias em que os benefícios da erradicação aérea superem as desvantagens".
O governo Karzai, embora aparentemente esteja dividido agora a respeito de autorizar a fumigação aérea ou não, está aumentando a pressão sobre o Ocidente para que faça mais. Na segunda-feira, o governo afegão anunciou que pedira formalmente às forças da OTAN e dos EUA que expulsassem os combatentes talibãs das áreas de cultivo da papoula antes que os efetivos afegãos entrassem para erradicar.
"Para um novo plano para este ano, solicitamos que as forças militares estrangeiras vão e realizem operações militares para permitir-nos erradicar as papoulas", disse o porta-voz do Ministério do Interior, Zemarai Bashary, em uma entrevista coletiva na segunda-feira. "Em áreas em que há insegurança, precisamos de forte suporte militar para podermos erradicar as plantações de papoulas. A polícia não pode erradicá-las e fazer frente aos insurgentes ao mesmo tempo", disse.
Essa solicitação aconteceu na semana passada, na esteira das críticas ao Ocidente proferidas pelo próprio presidente Karzai. Ele acusou a comunidade internacional de desanimar quando se tratava da luta contra os entorpecentes no Afeganistão, apontando com mordacidade que onde o seu governo tinha o controle, a produção da papoula caíra.
Na quarta-feira, Costa, o diretor do UNODC, manteve a pressão, dizendo naquela entrevista coletiva em Bruxelas: "Há uma pressão fortíssima que se acumula a favor da erradicação aérea nessa parte do Afeganistão. O governo não decidiu ainda e o apoiaremos no que decidir fazer", disse.
Porém, embora a fumigação aérea e o aumento do envolvimento dos militares dos EUA e da OTAN na campanha contra a papoula pareçam cada vez mais prováveis, essa rota está cheia de obstáculos, de acordo com os especialistas consultados pela Crônica.
"A mudança de opinião afegã é uma resposta direta ao aumento da pressão de parte dos EUA sobre o governo Karzai para que adote um modelo de erradicação aérea à colombiana", disse Ted Galen Carpenter, vice-presidente de estudos sobre políticas de defesa e relações exteriores no libertariano Instituto Catão. "Até pouco tempo atrás, o governo Karzai resistiu mesmo a isso porque entendia que isto contrariaria muitos lavradores afegãos, mas quando se é cliente de um patrocinador poderoso, é difícil resistir à pressão".
Embora a erradicação massiva possa realmente causar algum impacto sobre o tráfico de ópio, isso acontecerá a um "custo horrível", disse Carpenter. "Isso levará os agricultores às mãos do Talibã e de seus aliados na Al-Qaeda, o que é absolutamente a última coisa de que precisamos quando se trava a guerra contra o terrorismo islâmico", disse. "O Afeganistão foi aclamado como um grande sucesso há dois anos, mas agora está parecendo muito incerto, o problema da segurança está se deteriorando com rapidez e uma campanha massiva de erradicação só vai piorar as coisas".
"A erradicação foi mais forte neste ano do que no passado, mas ainda foi igual a quase nada", disse Vanda Felbab-Brown, sócia não-residente na Instituição Brookings que se especializa em drogas, insurgências e contra-insurgências. "Então, agora, a pressão a favor da erradicação aérea chegou quase ao extremo. Mas, há um verdadeiro debate sobre se isto realmente conseguiria algo ou acabaria sendo contraproducente. Acho que seria um desastre", disse, citando os motivos agora familiares de problemas humanitários e do aumento do apoio ao Talibã.
Quando a Crônica lhe pediu que comentasse, Barnett Rubin, diretor de estudos e sócio sênior no Centro de Cooperação Internacional da Universidade de Nova Iorque, apontou para as suas publicações no blog Informed Comment Global Affairs. Chamando a erradicação de "a ferramenta mais fotogênica" na estratégia contra os entorpecentes, Rubin escreveu que ele era forçado a observar com freqüência que: "O narcotráfico internacional não é causado pelos agricultores afegãos".
As drogas não são o problema-chave, argumentou Rubin, mas o dinheiro que vem delas, que financia a insurgência e corrompe as forças do governo. Começar uma campanha de erradicação não lida eficientemente com o dinheiro das drogas, escreveu ele, porque 80% disso vão para os traficantes. E isso aumentará o valor das papoulas, tornando-as mais atraentes para os agricultores.
"Mais erradicação forçada neste momento", escreveu Rubin, "quando tanto a interdição quanto os sustentos alternativos mal estão começando, aumentará o valor econômico da economia da papoula, espalhará o cultivo de novo em áreas do país que ou o eliminaram ou o reduziram e conduzirá mais comunidades aos braços do Talibã".
As políticas de drogas dos EUA estão sendo orientadas menos pelo que vai funcionar no Afeganistão do que por preocupações políticas domésticas, disse Felbab-Brown. "Como as eleições presidenciais se aproximam, o Afeganistão vai ser uma questão política. A pergunta que os democratas farão é: 'Quem perdeu no Afeganistão?' Logo, há um verdadeiro incentivo para que os republicanos demonstrem resultados de alguma maneira e a saída mais fácil é a fumigação aérea. Este é um caso clássico de políticas que são dominadas pela política", disse ela.
"Perdido em toda essa política está o fato de que a erradicação nunca deu certo no contexto de conflito militar", observou Felbab-Brown. "Isso só acontece depois que a paz foi alcançada, seja através da repressão, como no modelo maoísta, seja por intermédio do desenvolvimento alternativo, seja mediante a erradicação e a interdição. Visto que o problema da segurança no Afeganistão não está melhorando, é muito improvável que a erradicação funcione. Karzai gosta de falar sobre as drogas como um câncer que aflige o Afeganistão, mas ao adotar a erradicação aérea, estamos prescrevendo o tratamento que mata o paciente", disse.
"Os trabalhos antientorpecentes não terão sucesso até que a segurança melhore", disse Felbab-Brown. "A prioridade é essa e exigirá vários componentes, um dos quais é que haja mais efetivos no lugar, inevitavelmente". Mas ela disse que não percebe nenhuma vontade política para tal providência nem na OTAN nem nos EUA. "Como resultado do Iraque, não há vontade de aumentar os efetivos neste teatro vitalmente importante, então duvido bastante das perspectivas para isso", disse ela.
"A situação está cada vez mais desanimadora e a resposta dos EUA tem sido tomar a direção errada", resumiu. "Agora, parece que já é tarde demais e as pessoas que tentavam impedir isso estão ficando de lado. As políticas estadunidenses para o Afeganistão estão sendo reféns das preocupações políticas domésticas".
"Ninguém tem uma boa resposta para o Afeganistão", disse o diretor da Drug Policy Alliance, Ethan Nadelmann, que publicou recentemente um artigo que pede a criança de uma zona de tolerância global ali. "A pergunta é: quais são as opções? Um, podemos continuar fazendo o que estamos fazendo, o que não está alcançando os objetivos de ninguém. Dois, podemos empreender uma campanha agressiva de erradicação aérea, que seria um desastre humanitário e faria com que as pessoas caíssem nas mãos do Talibã", disse, resumindo as opções de políticas que têm mais chances de acontecer.
"Três, há a franca legalização, mas isso não está no horizonte político de ninguém", prosseguiu Nadelmann. "Quatro, há a idéia de comprar logo o ópio. Isso pode funcionar por um ano mais ou menos, mas quase inevitavelmente se transformaria em uma espécie de sistema de manutenção do preço com o país produzindo o dobro no ano seguinte. Não há motivo para que os agricultores não nos vendam uma parte e a outra ao mercado clandestino; isso só injetaria outro comprador no mercado".
Enfim, disse Nadelmann, há a proposta do Conselho de Senlis de autorizar a produção da papoula para o mercado medicinal lícito. "A proposta do Senlis é uma idéia interessante, mas há um montão de problemas nela, inclusive a questão de saber se há realmente uma escassez global de analgésicos opiáceos. É bom que o Senlis divulgue essa idéia provocativa, mas a questão é saber se é viável", disse Nadelmann.
Há outra opção, explicou. "Aceitemos a papoula como bem global", disse, "pensemos no Afeganistão como o equivalente global de uma zona de tolerância municipal. Ela tem todos os tipos de vantagens naturais na produção da papoula - é um produtor de baixo custo e ali há uma tradição do seu cultivo. Como a produção global da papoula está centrada quase exclusivamente no Afeganistão, como agora, é menor provável que surja em qualquer outro lugar, possivelmente com conseqüências ainda mais negativas", argumentou.
"Não estamos falando de um lugar com um vácuo de autoridade que fomente o terrorismo, mas de uma atividade regularizada que serve ao mercado global e que não pode ser nem erradicada nem suprimida, como se sabe depois de cem anos de história", prosseguiu Nadelmann. "Temos que aceitar o fato de que ela continuará sendo cultivada, mas deveríamos manipular o mercado para garantir que os EUA, a OTAN e o governo Karzai façam progresso em seus objetivos econômicos, políticos e de segurança".
Embora a idéia pareça ser espantosa, historicamente o governo dos EUA não teve medo de colaborar com elementos criminosos quando servia aos seus interesses, quer sejam os traficantes de heroína no Sudeste Asiático ou nas docas de Marselha, quer sejam os traficantes de cocaína durante a guerra centro-americana dos anos 1980, quer sejam os rebeldes afegãos que cultivavam papoulas durante a guerra contra os sovietes. "Fomos para a cama com criminosos organizados e caudilhos ao longo da nossa história quando isso serviu aos nossos objetivos", apontou Nadelmann.
Tal ação não exigiria pronunciamentos públicos, disse Nadelmann; na verdade, seria o contrário. "Bush não sairia a declarar uma mudança de políticas, mas simplesmente se permite que aconteça meio na moita, como durante a Guerra Fria eram feitas transações com figurões porque se estava atrás de um objetivo mais importante. É preciso ter limites morais, é claro, mas, na medida em que se pode semilegitimá-lo, aumenta-se a probabilidade de regularizá-lo e fiscalizá-lo com eficiência", disse.
"Esta sugestão pode ser chamada de maquiavélica", disse Nadelmann, "ou pode-se chamá-la de simples pragmatismo, mas dentre um montão de opções ruins, esta pode ser a menos pior".























