TRUTH CAMPAIGN 08

Edição #550, Sep 05, 2008

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    Matéria: Em mudança de estratégia, efetivos estadunidenses se somarão ao combate à papoula no Afeganistão

    No Afeganistão, os militares dos Estados Unidos estão unindo as missões contra a insurgência com a luta antidrogas no que os oficiais chamaram de "uma mudança básica de estratégia" na campanha afegã deles. Até agora, os militares estadunidenses se afastaram das operações antidrogas no Afeganistão, deixando-as para a DEA e as autoridades britânicas e afegãs em uma tentativa de evitar alienar as populações camponesas afegãs que dependem da papoula para terem renda.

    Mas, como a produção afegã de papoula teve uma alta histórica no ano passado e tem-se previsto que chegará ainda mais alto neste ano - o Afeganistão foi responsável por 92% da oferta global de ópio em 2006 e responderá por quase 100% neste ano -, apesar do aproximadamente bilhão de dólares em ajuda antidrogas dos EUA, em Washington os funcionários decidiram após longas discussões que a guerra às drogas afegã deve ser intensificada.

    http://stopthedrugwar.org/files/opium_poppy1986_2006.jpg
    (fonte: state.gov/p/inl/rls/rpt/90561.htm)
    Os funcionários estadunidenses estão cada vez mais preocupados com os laços entre traficantes de drogas, o Talibã e militantes da Al-Qaeda, especialmente no sudeste do Afeganistão, onde tanto a insurgência quanto a produção da papoula têm as raízes mais profundas. Uns 70 soldados estadunidenses, 69 soldados da OTAN e centenas de policiais e soldados afegãos, combatentes talibãs e civis afegãos foram mortos em combate até este momento do ano, o terceiro ano do ressurgimento talibã.

    As novas políticas foram anunciadas em um novo relatório, A estratégia antientorpecentes dos EUA para o Afeganistão, lançado na semana passada e divulgado em uma sessão informativa do Ministério das Relações Exteriores dos EUA no dia 09 de agosto pelo diretor do Gabinete de Política Nacional de Controle das Drogas (ONDCP, a sigla em inglês para a secretaria antidrogas estadunidense), John Walters, e o vice-ministro das Relações Exteriores para Assuntos Internacionais de Entorpecentes e Repressão Legal, Thomas Schweich.

    "Sabemos que a papoula, que talvez perda só para o terror, é uma imensa ameaça ao futuro do Afeganistão", disse Walters. "Os trabalhos do povo afegão de construir instituições de justiça e de império da lei são ameaçados não só pelo terror, mas também pelas forças das drogas que são tanto econômicas quanto viciantes e que, claro está, apóiam o terror em alguns casos, não só através do dinheiro, mas mediante a influência e o afastamento de pessoas das estruturas do governo em direção às estruturas das máfias e da violência do narcotráfico", disse.

    A nova estratégia é uma combinação de cenouras e porretes, com muitíssima ênfase nos porretes. Dos $700 milhões orçados para as atividades antidrogas neste ano, só cerca de $120 milhões a $150 milhões servirão para o desenvolvimento alternativo e o resto será dedicado à erradicação, à interdição, à construção do sistema afegão de justiça penal e à perseguição dos chefões do narcotráfico.

    Uns $30 milhões serão alocados às comunidades agricultoras que concordam em desistir da produção da papoula, mas isto é uma miséria quando comparado com os $3.1 bilhões que vale o tráfico segundo as estimativas ou mesmo com os aproximadamente $700 milhões estimados que vão parar nas mãos dos camponeses. Embora a maior parte do dinheiro de incentivo vá ao norte, onde a produção está em baixa, o leste e o sudeste mais amigos do Talibã terão a erradicação forçada e um aumento dos trabalhos de perseguição dos grandes traficantes. O cônsul Schweich considerava a abordagem mais dura como "empecilhos consideravelmente mais severos" para aquelas áreas. E os militares estadunidenses vão estar envolvidos.

    http://stopthedrugwar.org/files/opium-smaller.jpg
    os artigos do traficante de ópio (foto do editor da Crônica, Phil Smith, durante uma visita ao Afeganistão em setembro de 2005)
    "Há uma relação clara e direta entre o tráfico ilícito de ópio e os grupos insurgentes no Afeganistão", disse o relatório do Ministério das Relações Exteriores. O Pentágono "colaborará com a DEA" e demais agências "para desenvolver opções para uma estratégia coordenada que integre e sincronize as operações antientorpecentes, particularmente a interdição, na estratégia geral de segurança".

    Ainda não está claro o que isso quer dizer exatamente. Na sessão informativa de 09 de agosto, Walters se esquivou das mesmas perguntas sobre a natureza precisa do envolvimento dos militares estadunidenses. "Esperamos um ambiente mais permissivo para estas operações, dados os planos e os compromissos aqui", disse Walters. "De novo, o que - a sua pergunta era que operações antientorpecentes os militares vão fazer. Isso não é o que isto está fazendo, está dizendo que os militares vão virar uma força erradicadora ou a força de interdição. O que vamos fazer é criar - achamos que criamos agora as estruturas para permitir operações de combate aos entorpecentes, quer sejam detenções de pessoas por afegãos, quer sejam a interdição e a erradicação que serão integradas no trabalho de segurança que está em andamento".

    Pode dar certo, mas há obstáculos gigantescos no caminho, disse Raheem Yaseer do Centro de Estudos Afegãos na Universidade de Nebraska-Omaha. Melhorar o problema da segurança é crucial, disse Yaseer.

    "Os homens-bomba e os talibãs estão cruzando a fronteira vindos do Paquistão com muitas armas, passando por postos de fiscalização e se infiltrando entre os aldeões, de onde atiram contra as forças aliadas. Depois, os aliados bombardeiam as aldeias e isso cria muito ressentimento e as pessoas não querem nem saber dos aliados", disse. "Os EUA conseguem rastrear uma bala que cruza a fronteira, mas não encontrar os talibãs", disse com frustração em sua voz.

    O desenvolvimento alternativo pode atrair camponeses se o problema da segurança fosse estabilizado, disse. "São os grandes caudilhos e chefes de guerra que são o problema", discutiu Yaseer. "E sim, há alguns altos funcionários, gente graúda, envolvidos no narcotráfico também. Todos eles têm sido alimentados por este dinheiro durante anos e não querem que acabe. Mas a gente comum ficaria satisfeita com um pouco de dinheiro porque sabe que cultivar papoulas é condenado pela tradição e religião dela".

    A corrupção endêmica é outro problema. Mesmo a ajuda antidrogas e a assistência ao desenvolvimento alternativo provavelmente serão desviadas, disse Yaseer. "A corrupção é muito arraigada e muito dinheiro desaparecerá nos bolsos do pessoal. É preciso ter cuidado com as pessoas no topo também ou não terá eficiência", disse. "Só se estará gastando dinheiro inutilmente".

    Os líderes no Congresso chamaram a nova estratégia de um "reconhecimento de boas-vindas" de que novas iniciativas tivessem que ser cortadas para lidar com o problema da papoula afegã, mas temiam que não fossem suficientes. "O que falta ao plano é o reconhecimento de que o Afeganistão está se aproximando de um ponto crítico e de que é preciso uma ação imediata para eliminar a ameaça dos cabeças e dos cartéis do narcotráfico aliados aos terroristas para que possamos inverter o deslize firme do país em um possível narco-estado fracassado", disseram o presidente do Comitê de Relações Exteriores da Câmara, o deputado Tom Laton (D-CA) e a presidenta da bancada minoritária, a deputada Ileana Ros-Lehtinen (R-FL) em uma declaração em resposta à nova estratégia.

    Lantos e Ros-Lehtinen não são os únicos congressistas preocupados. Outros pediram uma abordagem totalmente diferente. Seguindo o exemplo do grupo de especialistas francês sobre defesa e políticas de drogas, o Conselho Senlis, que esteve pedindo desde 2005 a autorização da papoula, o deputado Russ Camahan (D-MO) sugeriu autorizar os agricultores afegãos a cultivarem a planta para analgésicos legais, de maneira similar à forma pela qual a comunidade internacional diminuiu o problema do narcotráfico na Índia e na Turquia. O senador John Sununu (R-NH) sugeriu que os EUA comprem cultivos de papoulas dos agricultores e os queimem. O senador Joe Biden (D-DE) sugeriu mudar o enfoque dos lavradores pobres para desordenar os cartéis que estão transportando as drogas.

    Mas, o secretário antidrogas e o Ministério das Relações Exteriores recusaram explicitamente a autorização como uma "solução infalível" inviável que não daria certo e repudiaram igualmente propostas de comprar o cultivo. E, definitivamente, vão perseguir tanto lavradores pobres quanto chefões do narcotráfico.

    Contudo, o mesmo de sempre não vai funcionar, disse a Drug Policy Alliance. "A chamada tática 'do porrete e da cenoura' deu errado em todos os países em que foi tentada, inclusive no próprio país dela", disse Bill Piper, diretor de assuntos nacionais do grupo. "Contanto que exista demanda de drogas, haverá uma oferta para satisfazê-la. A proibição das drogas torna as plantas mais valiosas do que o ouro".

    A mesma solução de sempre pode até piorar as coisas, discutiu Piper. "Os EUA estão perigosamente próximos de transformar o Afeganistão no próximo Iraque", disse Piper. "A erradicação forçada dos cultivos de papoulas está levando os afegãos pobres às mãos dos nossos inimigos, fortalecendo o Talibã e fomentando a insurgência ali. A guerra contra as drogas está solapando a guerra contra o terror e empurrando o Afeganistão à beira da guerra civil".

    O governo Bush descobriu tardiamente que tem um problema muito sério no Afeganistão. Agora, trata-se de saber se esta nova estratégia vigorosa vai acalmar a situação ou se apenas vai inflamá-la.

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