CHANGING MINDS, LAWS & LIVES CAMPAIGN

Edição #607, Nov 06, 2009

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    Carta Aberta: Você Estragou a Matéria do “Dedo-Duro”, Anderson Cooper

    Caro Sr. Cooper:

    http://stopthedrugwar.org/files/borden12.jpg
    David Borden
    Como telespectador da CNN que geralmente aprecia o seu trabalho, fiquei atônito com como o seu informe sobre o movimento “Parem de Dedurar” passou longe do alvo. É fácil encontrar alguém disposto a fazer uma declaração extrema, como Cameron Giles, o artista do hip-hop, quando ele disse que não entregaria um assassino em série. Mas, o senhor acha que a voz mais extrema no ar seja aquela que merece uma parte tão grande do tempo de entrevistas na sua matéria?

    O meu problema não é com as críticas feitas contra pessoas como Giles ou o movimento Parem de Dedurar. Eu me preocupo com o que não foi dito. Por exemplo, o momento mais interessante na matéria foi o comentário de David Kennedy sobre as táticas policiais na guerra contra as drogas. No entanto, o senhor não ofereceu nem uma segunda oração sobre isso na tela (pelo menos na versão da CNN) para que o professor Kennedy explicasse quais poderiam ser essas táticas ou por que elas poderiam produzir tal efeito. O senhor acha mesmo que esses três segundos constituem um cumprimento adequado de sua responsabilidade profissional de proporcionar matérias equilibradas e informativas?

    Um exame de verdade da questão do “deduração” foi feita no documentário de 1999 de Ofra Bikel para o Frontline, Dedo-Duro ["Snitch"]. Um dos presos que Bikel entrevistou, Clarence Aaron, pegou três sentenças de prisão perpétua enquanto cursava a faculdade aos 23 anos por causa de um papel menor em uma transação de drogas – “formação de quadrilha”, como a chama o governo. Todos os outros participantes pegaram menos tempo, embora o nível de responsabilidade deles na transação tivesse sido maior. O primo de Aaron, James, na verdade, foi meramente condenado à liberdade vigiada – em troca de depor contra Aaron – e saiu livre da sala de justiça.

    De acordo com Aaron, o primo dele lhe disse que “teve que fazer o que [ele] tinha que fazer” e que isso incluía mentir ao júri. Um dos objetivos da promotora Deborah Griffin, aparentemente, era causar a anulação do julgamento e forçar Aaron a trocar por um advogado menos hábil que o que ele tinha e ela conseguiu usar James para manipular a situação a fim de ocasionar isso. Se James não cooperasse, disse ele a Aaron, ela ameaçava “pó[-lo] na prisão pelo resto da vida [dele]”.

    É lógico, Aaron ainda está na prisão até hoje. É possível ler um pouquinho mais sobre ele na coluna de Debra Saunders do San Francisco Chronicle aqui. Ela escreve sobre ele todos os anos, na época de perdão do Natal, em vão até o momento.

    Infelizmente, o caso de Aaron é incomum principalmente pela quantidade de atenção que recebeu. A troca de indulgência – ou até dinheiro – pelo depoimento que ajudará a promotoria é uma tática absolutamente rotineira na guerra às drogas. Na verdade, a DEA continuou usando um “superdelator” chamado llamado Andrew Chambers para numerosas ações criminais depois que um tribunal determinara que era um perjuro reincidente. O bom senso nos diz que o depoimento adquirido desta maneira nem sempre é confiável. É um comentário nojento sobre o estado do nosso sistema de justiça que os promotores usem uma tática assim tão freqüentemente. O fato de que as leis de sentenças mínimas obrigatórias que granjearam a Aaron as suas sentenças de prisão perpétua fossem aprovadas pelo Congresso sem audiências nem aconselhamento de especialistas em outras formas (de acordo com o meu colega Eric Sterling, que apareceu no documentário de Bikel) é igualmente preocupante. O uso destas leis para prender pequenos infratores durante longos períodos de tempo também é muito comum, mas o termo “mínima obrigatória” não apareceu no seu informe nem uma vez. O senhor também não fez menção de que foi a alcagüetagem incorreta de um informante anônimo que levou à matança da nonagenária Kathryn Johnston por oficiais da polícia em um reide inadvertido na própria cidade-natal da CNN, Atlanta.

    A pesquisa do Sentencing Project descobriu que literalmente um em três negros jovens entre 20 e 29 anos está sob a supervisão do sistema de justiça penal – prisão, cadeia, liberdade vigiada ou livramento condicional – em qualquer dia dado. Aqui em Washington, os números são ainda mais altos. Quão difícil deve ser para todas estas pessoas com condenações em seus antecedentes encontrar empregos legítimos? Que tipo de impacto tal operação massiva e corrente causa sobre os laços da família, da amizade ou da comunidade? Quantas destas pessoas vão à cadeia ou à prisão, que tipos de coisas aprendem ali, quantos deles contraem doenças graves ali e as trazem aqui para fora? Com que freqüência pegam sentenças mínimas obrigatórias severas como Clarence Aaron? Em uma conferência de que participei recentemente, um professor da Faculdade Morehouse, lamentando a situação, entabulou uma conversação chamada “Cadê os homens?” ["Where are the Men?"]. O que deveríamos fazer de diferente, ou o que deveríamos deixar de fazer já que falamos nisso, em que ordem lidar com isso? O que faz tudo isto para mudar as pessoas, em sua maior parte em formas que não queremos, para causar mais criminalidade? Simplesmente não acho que um em cada três homens negros nesta faixa etária seja criminoso em nenhum sentido significativo da palavra.

    Sugiro respeitosamente que o sobre-uso e o mal-uso do sistema de justiça penal – não as letras de alguns rappers - são os principais motivos pelos quais o sentimento antipolícia é tão forte em algumas de nossas comunidades. Insto-lhes a fazer um informe de acompanhamento para darem uma olhada mais profunda nestas questões. Afinal, só porque Lou Dobbs acha que podemos deter as drogas na fronteira, isso não quer dizer que vá acontecer – e, se pudéssemos, as pessoas simplesmente usariam mais das drogas que podem ser cultivadas ou feitas aqui. Portanto, precisamos mudar fundamentalmente a maneira pela qual lidamos com as drogas. Acabar com a prática desgraçada de comprar ou coagir depoimentos de “dedos-duros” para prender pessoas por anos ou décadas seria um começo.

    Não seja parte do problema, Sr. Cooper, seja parte da solução – fale sobre isto.

    Sinceramente,


    David Borden, Diretor-Executivo
    Stop the Drug War
    Washington, DC
    http://stopthedrugwar.org

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