Matéria: Problemas no Peru pela Erradicação da Coca Nesta Semana
A campanha do governo peruano para erradicar os cocais no Vale do Rio Huallaga encontrou um obstáculo difícil nesta semana enquanto os líderes cocaleiros e outros movimentos sociais simpatizantes na cidade de Tocache protestaram contra a erradicação pela primeira vez, confrontaram a polícia e convocaram uma greve geral que ainda estava acontecendo, de acordo com os últimos relatos. A área é representada no congresso peruano por Nancy Obregón, uma das lideranças nacionais mais conhecidas do movimento cocaleiro.
(De acordo com o gabinete de Obregón em Lima, ela estava de viagem à Venezuela e ia demorar cinco dias antes de voltar ao país no início desta semana e dirigir-se diretamente a Tocache e aos cocais próximos. As tentativas da Crônica da Guerra Contra as Drogas de contatar Obregón em Tocache não tiveram sucesso até agora. (Leia a nossa entrevista recente com Obregón e outros líderes do movimento publicada na Crônica da semana passada aqui.)]

secando as folhas no armazém. O letreiro diz: “Coca Poder e Território, Dignidade e Soberania, Congresso Regional 2006-08”
Na segunda-feira, Satalaya disse aos repórteres na cena que os cocaleiros levariam os protestos a outro nível. "De acordo com o que tenho visto no Canal 7, o governo continuará com a erradicação. Os cocaleiros também serão radicais. Os líderes políticos não sabem do que somos capazes. Como eles dizem, tomaremos as ruas, queimaremos carros, talvez assim o Governo nos ouça", enfatizou.
A líder cocaleira nacional, Elsa Malpartida, que tem uma cadeira no Parlamento Andino, disse aos repórteres na segunda-feira que os cocaleiros estavam procurando uma moratória contra a erradicação até que os agricultores e o governo pudessem chegar a um acordo. "Propusemos uma suspensão temporária desta erradicação durante este conflito e estamos dispostos a procurar uma solução política para este problema", disse ela depois de se reunir com o ministro do Interior, Luis Alva Castro, e representantes da agência antidrogas nacional, a DEVIDA. "O debate ainda está acontecendo, mas acho que há boa vontade nos dois lados para alcançar uma decisão rápida. Confiamos nisso e esperamos uma resposta hoje à noite ou de manhã", disse Malpartida.
Malpartida pediu um programa de registro nacional dos cocaleiros, os quais "gostariam de ter alguma forma de legalização". Os cocaleiros não são o inimigo, disse ela. "Os verdadeiros inimigos são os produtores da cocaína química. Falamos de uma guerra contra as drogas. Mas, a fim de metermo-nos em uma guerra, é preciso visualizar o inimigo primeiro. Neste caso, eles decidiram que o inimigo é o cocaleiro. Eles o têm atacado por 30 anos e não houve nenhum resultado. E os narcotraficantes estão muito contentes com isso", disse.
Mas, no mesmo dia, o presidente peruano Alan García revidou contra os cocaleiros, dizendo que a violência e o extremismo não seriam tolerados. "O Estado tem que ser sólido e firme neste tema. E terá que haver a erradicação forçosa quando não houver erradicação voluntária", disse García. "Aqui o que tem que reger é a lei e, nisso, o governo não dará nem um centímetro atrás. Há outros que, pelas suas condições ou ideologia, porque aqui tem muito de ideologia, eu diria extremista e violentista, e uma parte aliada ao terrorismo, que preferem não fazê-lo e ficam sob suspeita de produzir somente para o narcotráfico com o argumento de que são pobres".
Mesmo enquanto García ameaçava, entretanto, outros movimentos sociais e até o prefeito de Tocache se uniram aos cocaleiros no que deveria ter sido uma greve geral de 48 horas. "Nos solidarizamos com os irmãos do campo. Sempre protestaram sozinhos, mas agora estamos somando forças para que o Governo solucione o problema da erradicação forçosa", declarou o prefeito de Tocache, David Bazán.
De acordo com os órgãos da imprensa peruana, a greve teve sucesso. As lojas ficaram fechadas em Tocache e os transportes foram parados na cidade e nas áreas vizinhas. A polícia tirou várias vezes as pedras que os cocaleiros puseram nas estradas para bloquear o trânsito, mas os cocaleiros continuam voltando com mais. Mais uns 150 policiais estavam sendo enviados nesta semana a Tocache de Ayacucho para tentarem restaurar a ordem.
Apesar de os ministros do governo viajarem a Tocache na terça numa tentativa de aliviar a tensão, parece que isso não funcionou. Na quarta-feira, os líderes cocaleiros locais, Julio Santolaya e Maria Paredes, disseram aos repórteres que nenhum funcionário do governo conversara com eles e que estavam preparados para aumentar os bloqueios nas estradas até que o governo concordasse em acabar com a erradicação. A Frente de Defesa de Tocache, formada por movimentos sociais que estão de greve em solidariedade com os cocaleiros, também confirmou que os protestos continuarão e se aprofundarão.
O maior sindicato cocaleiro do país, a Confederação Nacional dos Produtores Agropecuários das Bacias Cocaleiras do Peru (CONPACCP) também se somou à refrega. Em um manifesto apresentado à Crônica da Guerra Contra as Drogas, a organização dirigida por Nelson Palomino defendeu os protestos dos cocaleiros e advertiu que mais ocorrerão se o governo peruano não alterar as suas políticas.
Protestamos energicamente pelos atos de erradicação em Tocache, (anexos e redondezas) San Martín, Alto Huallaga, que se opõem à erradicação compulsiva da folha de coca. Diálogo com o governo, tivemo-lo e continuaremos tendo-o", disse o manifesto da CONPACCP. "Ninguém pode nos acusar de não sermos propensos ao diálogo, mas, pelo contrário, procuramos nos entender da melhor maneira possível. No entanto, o governo de turno, mediante cálculos políticos, monta cortinas de fumaça e desenha estratégias para surpreender-nos e dar-nos uma punhalada pelas costas. O que eles dizem? Nada. Por quê? A estrutura repressiva está dada dos EUA. E os obedientes do governo, para não perderem os seus polpudos salários têm que obedecer, esta verdade abre passagem pouco a pouco", disse o grupo.
"Evitemos novos confrontos, como os registrados em anos anteriores, eles podem se produzir pela oposição camponesa à eliminação forçosa dos cocais", prosseguiu o manifesto da CONPACCP. "Haverá enfrentamentos, porque a erradicação continua e os agricultores não vão ficar sentados. É simples assim, como se lê e se ouve. Porque os camponeses vão defender o único sustento deles como camponeses produtores".

















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