CHANGING MINDS, LAWS & LIVES CAMPAIGN

Edição #609, Nov 20, 2009

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    Matéria: No México, É a Vez da Guerra às Drogas de Calderón

    O presidente mexicano recém-eleito, Felipe Calderón, tomou posse em dezembro após uma vitória por pouco sobre a o seu rival esquerdista, Andrés López Obrador, e nas poucas semanas desde que esteve no poder, Calderón tomou medidas rápidas e enérgicos contra as organizações poderosas, ricas e impiedosas do narcotráfico do país, os chamados cartéis. Mas, embora as ousadias de Calderón tenham lhe conseguido os parabéns dos mexicanos ávidos de lei e ordem e do governo Bush, os analistas do México duvidam que signifique algo no longo prazo, especialmente sem as reformas fundamentais dos sistemas policial, militar e judicial do país.

    http://stopthedrugwar.org/files/mexicandrugpatrol.jpg
    patrulha antidrogas mexicana
    Com a violência dos cartéis alcançando níveis recordes, Calderón tomou medidas rápidas e drásticas, enviando 6.000 soldados e policiais ao estado natal dele em Michoacán, onde as disputas entre os cartéis levaram a uma violência horrenda. Uma semana depois, ele mandou mais 3.000 à cidade fronteiriça de Tijuana e desarmou a polícia da cidade, a qual, segundo se diz, está profundamente infiltrada pelos cartéis. Ao mesmo tempo, Calderón enviou ainda mais soldados e policiais a Acapulco, o destino de férias que até o ano passado estivera bem isolado da violência dos cartéis. Isso mudou quando batalhas armadas com submetralhadoras e lança-granadas irromperam no destino turístico no verão passado.

    Na noite de sexta-feira passada, Calderón tomou outra medida drástica, quando concordou em extraditar 10 chefes do narcotráfico aos Estados Unidos, o mais destacado entre eles sendo Osiel Cárdenas, que dirigiu o cartel do Golfo de uma cela de prisão desde a detenção dele em 2003. Outro extraditado foi Héctor Palma, que tem a reputação de ser o braço direito do líder do cartel de Sinaloa, Joaquín “El Chapo” Guzmán. Guzmán teria entrado na lista, mas fugiu da prisão em 2001. Calderón também extraditou os irmãos Ismael e Gilberto Higuera Guerrero, sequazes no cartel Arellano Félix de Tijuana.

    “Estamos determinados a não tolerar nenhum desafio à autoridade do estado”, disse Calderón na sexta-feira passada.

    Os ditos e feitos de Calderón conseguiram rapidamente os elogios do governo Bush. “As ações à noite do governo mexicano não têm precedentes no seu alcance e importância”, disse o Procurador-Geral dos EUA, Alberto R. Gonzáles, em uma declaração no sábado. “Nunca antes os Estados Unidos tinham recebido do México um número tão grande de importantes réus e demais criminosos por delitos de drogas para processo criminal neste país”.

    Mas, apesar de milhares de buscas, centenas de detenções e a apreensão ou erradicação de grandes quantidades de maconha, pode haver menos na ofensiva de Calderón do que parece. “Ao criar uma imagem pública, Calderón mostrou que vai levar o crime organizado a sério desde o princípio”, disse Maureen Meyer, a sócia para o México e a América Central do Washington Office on Latin America. “O alto nível de operações é um sinal claro, como foi a extradição de membros dos cartéis aos Estados Unidos”, disse ela à Crônica da Guerra Contra as Drogas. “Mas é preciso ver isso em termos de resultados no longo prazo. Não temos lido muitos informes sobre totais da erradicação que sejam maiores do que o normal”, observou.

    “Esta campanha visa tanto a Washington quanto à Cidade do México”, disse Larry Birns, diretor executivo do Council on Hemispheric Affairs em Washington, DC. “É meio que uma dissidência de choque e consternação de Calderón para anunciar a presidência dele”, disse Birns à Crônica. “Calderón esteve preocupado que o seu rival derrotado, López Obrador, o tenha ofuscado com as artimanhas políticas dele e ele pode usar esta campanha antidrogas como peça de teatro para eclipsar o seu rival. O único problema é que a idéia de que o México vá solucionar o seu problema das drogas é em grande parte uma ilusão”.

    Se o México quiser abordar os cartéis, vai ser necessário mais do que reides notórios e operações militares, disseram os analistas. “Os passos que o México deveria estar tomando são reformas mais estruturais do sistema judicial para que haja mais transparência no processo, melhores investigações e mais mecanismos de prestação de contas e supervisão dentro do exército e da polícia”, disse Meyer do WOLA. “Se estas grandes operações antidrogas não forem acompanhadas de reformas no judiciário, na lei e no exército, provavelmente se verão os mesmos resultados presenciados no passado”.

    O predecessor de Calderón, Vicente Fox, liderou uma campanha agressiva similar contra os cartéis no início do governo dele, mas sem as reformas mencionadas por Meyer, a guerra dele contra os cartéis não levou a uma diminuição, mas a uma alta na violência. Enquanto Fox conseguia desordenar ou decapitar várias organizações do narcotráfico, os cartéis e os chefes remanescentes lutaram uns com os outros a fim de protegerem a “praça” ou “franquia” lucrativa contra os oficiais corruptos da lei em várias cidades, levando a números de mortos constantemente mais altos entre os traficantes e os policiais que os combatiam ou se aliavam a eles.

    Por volta do ano passado, a violência alcançara níveis recordes, com mais de 2.000 mortos na guerra dos cartéis. Isso é mais do que o número de soldados estadunidenses mortos no Iraque durante o mesmo período. A violência também atingiu novos níveis de horror, ou, mais precisamente, terror exemplar, com policiais decapitados em Acapulco e as cabeças dos traficantes assassinados sendo jogadas no centro da pista de dança de uma danceteria em Michoacán, entre outras atrocidades.

    É provável que em vez de reduzir a violência dos cartéis, a ofensiva de Calderón vá, como a de Fox antes dela, conduzir a mais violência enquanto os traficantes tentam se restabelecer depois dos golpes que receberam. “A tendência tem sido que o governo objetive as altas patentes dos cartéis, daí há uma luta pelo poder entre eles, assim como dentro dos cartéis enquanto os chefes médios lutam pela supremacia. Muito provavelmente, presenciaremos agora mais lutas entre os cartéis e dentro deles”, disse Meyer.

    Com as rendas das drogas ilícitas estimadas em $142 bilhões nos EUA e no Canadá todos os anos e os traficantes mexicanos embolsando uma fração considerável deles, os cartéis têm todos os motivos para se combaterem uns aos outros pela supremacia. E embora eles tenham se abstido tradicionalmente de travar uma guerra aberta com o governo nacional, há temores de que a pressão de Calderón e especialmente a sua permissão de extradição dos chefes do tráfico conduzam os cartéis mexicanos a seguir a liderança dos colegas colombianos, que no início dos anos 1980 desencadearam uma guerra contra o Estado Colombiano quando este os ameaçou de extradição aos EUA.

    Também se teme que a corrupção que abrangeu várias forças policiais mexicanas engula os militares enquanto são lançados à guerra às drogas de Calderón. “Membros do exército não estão imunes à corrupção”, observou Meyer do WOLA, apontando o surgimento dos Zetas, um grupo de ex-paramilitares treinados pelos EUA para virarem oficiais antidrogas que mudou de lado para se unir às forças do Cartel do Golfo e que é culpado por parte da violência mais horrenda.

    “Quando se é um policial ou um militar que recebe um cinqüenta avos do que pode ganhar trabalhando para os narcos, todas as probabilidades estão contra você”, disse Birns. “Por isso se vê a subversão das forças de segurança e a demissão periódica de toda a polícia”.

    Contanto que a realidade subjacente do apetite insaciável dos Estados Unidos pelas drogas ilegais continue, disse Birns, a mais recente cruzada antidrogas mexicana não passa de teatro. “Isso é mais decorativo do que qualquer outra coisa”, disse ele. “É parecer fazer algo. Com todo esse dinheiro envolvido, como é possível fechar a torneira? Vai ser preciso pensar no impensável e investigar a política e a economia da legalização das drogas”.

    Em um editorial ainda não publicado e escrito enquanto Calderón estava prestes a assumir o poder, o diretor executivo da Drug Policy Alliance, Ethan Nadelmann, teve uma presciência inquietante dos eventos no México. “O novo presidente prometerá desbaratar os traficantes e fará de tudo para tranqüilizar Washington a respeito disso”, escreveu Nadelmann. “Ele nomeará pessoas novas para cargos de suma importância no exército e na justiça criminal e lhes dirá que façam o que for para reduzir a violência relacionada às drogas. Alguns dos traficantes mais notáveis acabarão presos ou mortos. A violência silenciará. A mídia em ambos os lados da fronteira comemorará a nova solução. E então... Começará tudinho outra vez. As gangues do narcotráfico se reagruparão com novos líderes e novas relações. Os oficiais antes incorruptíveis serão corrompidos. Os policiais de todos as patentes e com toda a aparência de probidade tremerão de medo ante as balas dos assassinos. E mais uma vez os mexicanos se perguntarão por que o ciclo nunca pára de verdade”.

    E assim vão as coisas na frente mexicana da nossa guerra às drogas.

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